quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A GAITA DE VÓ LUZIA

 o cuspe de vó luzia

tinha gosto de cana

de coco

tinha gosto de saudade

do interior perdido na janela

o sopro da gaita em minha boca

o ar na mão do tamanho do mundo

a infância não tem fundo

quando temos sorte

escorregamos até chegar aqui

nessa parede ancorada na morte

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

PARA CURTIR MINHA ANGÚSTIA

 

ninguém curte a minha angústia publicada

curtem minhas piadas

meus desenhos precipitados

alguns poemas equivocados

no entanto minha angústia

a que publico de maneira mais clara

mais evidente mais pura

não se segura numa página

escorre sob a força do olhar e se deposita

sobre a anterior que repousa sobre a anterior

que repousa sobre a anterior

sobre a anterior que se acumula

sobre o tempo que com a sua gula

a mastiga lentamente uma letra para cada dente

da sua boca infinita

e ao seu hálito misturo a minha existência

finjo que sou suas palavras

quando ainda estão sendo pensadas

mas que nunca serão ditas

 

domingo, 4 de outubro de 2020

BOM DE CONTAS

 

nunca fui bom de contas

meu colar de contas sempre foi de pedras ou de perdas

da minha cabeça só enxergava o osso

nem cabia em meu pescoço

pendurado na ponta da janela

esperava um aceno borrado de veneno

ou de qualquer outra forma de despedida

que me levasse dessa vida

para dentro do mundo

onde num segundo compreendesse o tempo

mas eu nunca fui bom de contas

uso os dedos para somar meus medos

porque as perdas não são multiplicadas

diminuem juntamente com as cartilagens adquiridas

entre uma e outra ferida

nunca fui bom de contas

tudo sempre dividi ao meio

entre o que ainda vem e o que já veio

porque o agora nunca está na hora

o presente está sempre em fuga

deixando o rastro no meu corpo nessas rugas

 

sábado, 5 de setembro de 2020

ABSTRATO

 

eu não entendo nada daquele quadro

mas gosto de ficar olhando para ele

todo dia eu descubro algo diferente

como quando a gente olha para a nuvem

para dentro da gente

ou para um poema

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

DIREITO DE PERMANECER

 

tenho o direito de permanecer falado

tenho o direito de permanecer

tenho o direito de partir

em dois ou mais pedaços

tudo que eu disser pode ser usado

tudo que eu usar pode dizer

contra mim posso dizer

tenho o direito de dizer

o que pode ser usado contra mim

tenho o direito de permanecer pousado

em tudo que eu disser

que pode ser usado

tudo que eu fizer

pode parecer ousado

contra mim

tudo que eu quiser

tenho o direito de permanecer

calado posso ser usado

tenho o direito de não ter direito

de ficar calado

tenho o direito de permanecer fechado

tudo que eu quiser

pode ser encontrado

em tudo que eu tiver pensado

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

QUEM ME MERECE

 

quem me merece

sabe do estranho

que circula entre 

o que esfria e o que aquece


sabe dos meus pés de fumaça

marcando as traças


quem me merece

sabe do tamanho

da distância que procuro

sabe do meu corpo soterrado sob o muro


quem me merece

não merece tanto assombro

sabe que não sonho

sabe das palavras que deixei sob os escombros


quem me merece sabe que merece

encontrar outro estranho

que não seja tão pontiagudo

tão sem graça tão sem dentes

sem palavras destravadas desmedidas

um estranho que entenda dos artelhos

como quem mergulha em espelhos


quem me merece me pergunto

procuro num poema

mas um poema sempre trata de outro assunto

 

domingo, 2 de agosto de 2020

PINTURA

revelar a cor

sob a folha em branco

isso me comove

há outros gritos na página

mas a cor não fala

escuta o olhar e se espalha


PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...