o cuspe de vó luzia
tinha gosto de cana
de coco
tinha gosto de saudade
do interior perdido na janela
o sopro da gaita em minha boca
o ar na mão do tamanho do mundo
a infância não tem fundo
quando temos sorte
escorregamos até chegar aqui
o cuspe de vó luzia
tinha gosto de cana
de coco
tinha gosto de saudade
do interior perdido na janela
o sopro da gaita em minha boca
o ar na mão do tamanho do mundo
a infância não tem fundo
quando temos sorte
escorregamos até chegar aqui
ninguém curte a minha angústia publicada
curtem minhas piadas
meus desenhos precipitados
alguns poemas equivocados
no entanto minha angústia
a que publico de maneira mais clara
mais evidente mais pura
não se segura numa página
escorre sob a força do olhar e se deposita
sobre a anterior que repousa sobre a anterior
que repousa sobre a anterior
sobre a anterior que se acumula
sobre o tempo que com a sua gula
a mastiga lentamente uma letra para cada dente
da sua boca infinita
e ao seu hálito misturo a minha existência
finjo que sou suas palavras
quando ainda estão sendo pensadas
mas que nunca serão ditas
nunca fui bom de contas
meu colar de contas sempre foi de pedras ou de perdas
da minha cabeça só enxergava o osso
nem cabia em meu pescoço
pendurado na ponta da janela
esperava um aceno borrado de veneno
ou de qualquer outra forma de despedida
que me levasse dessa vida
para dentro do mundo
onde num segundo compreendesse o tempo
mas eu nunca fui bom de contas
uso os dedos para somar meus medos
porque as perdas não são multiplicadas
diminuem juntamente com as cartilagens adquiridas
entre uma e outra ferida
nunca fui bom de contas
tudo sempre dividi ao meio
entre o que ainda vem e o que já veio
porque o agora nunca está na hora
o presente está sempre em fuga
deixando o rastro no meu corpo nessas rugas
eu não entendo nada
daquele quadro
mas gosto de ficar
olhando para ele
todo dia eu descubro
algo diferente
como quando a gente
olha para a nuvem
para dentro da gente
ou para um poema
tenho o direito de permanecer falado
tenho o direito de permanecer
tenho o direito de partir
em dois ou mais pedaços
tudo que eu disser pode ser usado
tudo que eu usar pode dizer
contra mim posso dizer
tenho o direito de dizer
o que pode ser usado contra mim
tenho o direito de permanecer pousado
em tudo que eu disser
que pode ser usado
tudo que eu fizer
pode parecer ousado
contra mim
tudo que eu quiser
tenho o direito de permanecer
calado posso ser usado
tenho o direito de não ter direito
de ficar calado
tenho o direito de permanecer fechado
tudo que eu quiser
pode ser encontrado
em tudo que eu tiver pensado
quem me merece
sabe do estranho
que circula entre
o que esfria e o que aquece
sabe dos meus pés de fumaça
marcando as traças
quem me merece
sabe do tamanho
da distância que procuro
sabe do meu corpo soterrado sob o muro
quem me merece
não merece tanto assombro
sabe que não sonho
sabe das palavras que deixei sob os escombros
quem me merece sabe que merece
encontrar outro estranho
que não seja tão pontiagudo
tão sem graça tão sem dentes
sem palavras destravadas desmedidas
um estranho que entenda dos artelhos
como quem mergulha em espelhos
quem me merece me pergunto
procuro
num poema
mas um poema sempre trata de outro assunto
revelar a cor
sob a folha em branco
isso me comove
há outros gritos na página
mas a cor não fala
escuta o olhar e se espalha
repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...