repara
a perda é reparável
repara a perda
repara
a perda é irreparável
nunca para
a perda
nunca para
repara
nunca se repara
a perda
nunca para
SÉRGIO LIMA SILVA
repara
a perda é reparável
repara a perda
repara
a perda é irreparável
nunca para
a perda
nunca para
repara
nunca se repara
a perda
nunca para
tudo que vai
nos seus cabelos
quando você sorrir
sai daqui
desse poema
ou do que sinto
quando minto
ao não dizer
tudo que vai nos
seus cabelos
preenche o vento
desse momento
em que me meto
a escrever
o que não sei dizer
tudo que vai
nos seus cabelos
sai de mim
quando você sorrir
quando aprendo
a sentir
o que não sei dizer
a ferrugem surge no meio da página
igual no meio das pessoas
abrir uma pessoa molha tudo
abrir um livro dá em água
num livro a ferrugem
come uma vogal uma sílaba
retira o sentido
a ferrugem na pessoa
impede a leitura
a pele recoberta lembra uma estátua
que esqueceu de parar
um poema não é uma casa
não se exige um terreno
onde possa fincar alicerces
erguer paredes salpicadas de cimento
nem concreto que sustente nada concreto
um poema não é uma casa
não se abrem portas janelas nem se penduram quadros
não se retira o pó nem se retiram moradores
não abrem corredores
não se marca o piso com pegadas
um poema não é uma casa
não se sustenta num endereço
não se enquadra num lote que se esgote
não recebe visitas importantes ou inoportunas
não se acrescenta a nenhuma fortuna
não se inclina com a ventania
não se verga nas intempéries
nem se molha
mesmo quando fica do lado de fora
um poema não é uma casa
mas há quem entre e se acomode
pensando que more ou
se esconde
atrás de palavras
que nem sabem os nomes
ninguém presta muita atenção
quando o amor penetra
parece suave
porém quando arde
exala gumes
é do seu hálito pontiagudo
que as palavras se abrem
mostram seus músculos
repletos de pétalas obscenas
e outras carcaças eternas
depois que ele penetra
e o seu corpo é o nosso
outro corpo por dentro
por onde porejamos
de forma diferente
por onde sonhamos
com a sua cabeça
e ele nos narra os nossos sonhos
antes que a dor se estabeleça
antes que o amor aconteça
depois que ele nos prega
em sua pele qual a treva
tatuada de esferas
e nos entrega aos poucos
aos loucos sem esperas
depois que o amor penetra
não é mais nosso
nem é parte do outro
nem a parte do osso
nem o ouro nem o ouço
parece leve
parece breve
tudo é tenso
e denso
santos embaralhados
atravessados pela luz
e pelas coisas
inexistentes
insistentes
cruzam os céus de bambus
guiados por poema
nos finais de semana
minha lágrima fica mais ácida
o que tem a ver a acidez
com o fim de semana
como o que tem a ver
o fim com o fundo
o sim com o mundo
o chão com a aorta
o pão com a porta
como se tivesse o verde
a ver com o dia
se algo tivesse a ver com algo
não seria poesia
repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...