sexta-feira, 24 de março de 2017

CÉU DE OUTONO



a pele do céu é azul
despido ele se apresenta
esporra nuvens
e as nuvens cospem meu olho e engole a chuva
toda lembrança que me dei
injeto no nervo do céu 
que alucinado se desembrulha em folhas

BERÇO ESPLÊNDIDO



alguns pensamentos
alteram o calor do corpo
ainda bem que já estou morto
madeiras enfileiradas
obliteram os meus ossos

sexta-feira, 17 de março de 2017

RIO

parece um corpo cujo rosto sumo
parece incansável mas deitado sempre
corre e o suor evapora a margem


MARGEM


beira de rio
a superfície se desprende da água
olho repleto de lado de fora do mundo


terça-feira, 14 de março de 2017

TORRENCIAL



a palavra
com medo de ser chuva
cospe a nuvem
sem mastigá-la
chuva pronuncia sono
pronuncia sonho
sem dizer paredes
e quando chegar
depois de correr
ainda não será o lugar

sexta-feira, 3 de março de 2017

PARA AS SUAS PROVIDÊNCIAS

com preguiça de fazer um ofício
escrevo um poema
falo da luz contida na sombra
a língua de fora iluminando outro silêncio
falo da mesa repleta de papéis sem poesia alguma
ou com alguma poesia escondida
entre o espaço e uma letra a ser inventada
nem toda letra precisa de outra letra
nem toda poesia precisa de outra poesia
um ofício sempre precisa de outro ofício
ou de algum despacho para providências
poesia não precisa providenciar nada
nem precisa de competências


PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...