quinta-feira, 23 de maio de 2019

SURTO


aproveito o surto e fico mudo
deposito a poesia
no fundo do meu corpo
imóvel
não permito que ela cresça

sábado, 11 de maio de 2019

AQUÁRIOS


observo um cardume
de tubarões-martelo
vindo em direção
 à janela do meu quarto
devo estar sonhando
diz um deles
vejo um homem
dentro de um aquário



terça-feira, 7 de maio de 2019

CHORAR DO ABISMO


no meu abismo é permitido chorar
a lágrima toma a forma do lugar
vaga ideia do vazio líquido
criando olhos antes do início
erguendo as paredes do precipício
no meu abismo é permitido
chorar não muda as coisas do lugar
o mundo parece cobrir tudo
até o olho mudo
abre além do que é sentido
e enxerga o abismo que nunca vai chegar

terça-feira, 23 de abril de 2019

TÉDIO


encostado ao céu
nem percebo
que sou parte do seu sonho

MILAGRE ESTRANHO


a vida é um milagre estranho
deito sob a terra e não consigo me calar
falo uma árvore e espalho os galhos de ar
as unhas pintadas de frutos pequenos
secretam venenos
em fomes impossíveis de alcançar

sábado, 20 de abril de 2019

TÍMPANO


mordi a minha orelha sem querer
pensei que era a asa de um pássaro
mas era o pedaço de um som
que eu não queria ouvir
agora esse pedaço de orelha em minha boca
uma canção que eu não quero cantar
enfeita a minha memória
como a casa de um pássaro cheia d’água
pensa que é um mar


segunda-feira, 25 de março de 2019

DO TAMANHO DO MEU NOME


o mundo é quase o meu nome completo
faltam apenas as vogais
as consoantes
quando são pronunciadas
são os meus ais

segunda-feira, 18 de março de 2019

POEMA EM TESTE


testei um poema na cabeça
não deu certo
a cabeça não se abriu
mesmo com todo sonho derramado
testei o poema na água
por um momento a superfície estupefata
esbofeteou a própria face até formar estranhos
caminharam sobre as águas mas tinham asas
testei o poema no ar
não consegui respirar
testei na pele sob o sol
e essa camada formada que ora vos fala
parece palavra mas não passa da marca
do silêncio que ficou
testei o poema
utilizando palavras
essas escritas e outras pensadas
ele ficou longe sem alma
um nervo formado de alvoroço
testar poemas
é vestir um corpo sem osso




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

APRENDER COM FLORES


poetas aprendem com flores
a despetalar-se sem perder as cores
que é necessário o estrume
para alcançar o perfume
poetas aprendem com flores
a permanecer com a mesma cor
nas mãos do morto
nas mãos do amor
permanecer com o mesmo odor
permanecer calado
porque é efêmero seu significado
aprende com a flor
uma verdade enxuta
nem toda flor depois é fruta
poetas aprendem com flores
que com flores não há aprendizado
enquanto não existem são mudas
poetas existem não são cultivados                                             



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

SABES QUE ME ODEIAS


sabes que me odeias
? então por que me sonhas
? por que podas as plantas dos teus pés na minha cara
? por que me encarnas
? por que demarcas linhas em minhas costas
? por que meu sangue cobre a lente dos teus olhos
? por que teu tempo se acumula em minha porta
? por que me salvas ao me lembrar de que existo
? por que escorres em minhas calhas
sabes que me odeias
? então por que me cabes num poema e ainda sobres
? por que me encaixas no teu peito e em tuas sobras
? por que me matas e não me enterras na memória
? por que meu corpo pendurado em teu pescoço é o teu pelo
? por que me expeles dos teus poros e me evapora
? por que te encantas enquanto chovo sem molhar tua cabeça
talvez nem saibas que me odeias
cultivas alguma dor que nunca exala
e finges obter o cheiro com meu medo
e não suportas a ideia de um ódio ultrapassado