quarta-feira, 14 de outubro de 2020

PARA CURTIR MINHA ANGÚSTIA

 

ninguém curte a minha angústia publicada

curtem minhas piadas

meus desenhos precipitados

alguns poemas equivocados

no entanto minha angústia

a que publico de maneira mais clara

mais evidente mais pura

não se segura numa página

escorre sob a força do olhar e se deposita

sobre a anterior que repousa sobre a anterior

que repousa sobre a anterior

sobre a anterior que se acumula

sobre o tempo que com a sua gula

a mastiga lentamente uma letra para cada dente

da sua boca infinita

e ao seu hálito misturo a minha existência

finjo que sou suas palavras

quando ainda estão sendo pensadas

mas que nunca serão ditas

 

domingo, 4 de outubro de 2020

BOM DE CONTAS

 

nunca fui bom de contas

meu colar de contas sempre foi de pedras ou de perdas

da minha cabeça só enxergava o osso

nem cabia em meu pescoço

pendurado na ponta da janela

esperava um aceno borrado de veneno

ou de qualquer outra forma de despedida

que me levasse dessa vida

para dentro do mundo

onde num segundo compreendesse o tempo

mas eu nunca fui bom de contas

uso os dedos para somar meus medos

porque as perdas não são multiplicadas

diminuem juntamente com as cartilagens adquiridas

entre uma e outra ferida

nunca fui bom de contas

tudo sempre dividi ao meio

entre o que ainda vem e o que já veio

porque o agora nunca está na hora

o presente está sempre em fuga

deixando o rastro no meu corpo nessas rugas

 

sábado, 5 de setembro de 2020

ABSTRATO

 

eu não entendo nada daquele quadro

mas gosto de ficar olhando para ele

todo dia eu descubro algo diferente

como quando a gente olha para a nuvem

para dentro da gente

ou para um poema

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

DIREITO DE PERMANECER

 

tenho o direito de permanecer falado

tenho o direito de permanecer

tenho o direito de partir

em dois ou mais pedaços

tudo que eu disser pode ser usado

tudo que eu usar pode dizer

contra mim posso dizer

tenho o direito de dizer

o que pode ser usado contra mim

tenho o direito de permanecer pousado

em tudo que eu disser

que pode ser usado

tudo que eu fizer

pode parecer ousado

contra mim

tudo que eu quiser

tenho o direito de permanecer

calado posso ser usado

tenho o direito de não ter direito

de ficar calado

tenho o direito de permanecer fechado

tudo que eu quiser

pode ser encontrado

em tudo que eu tiver pensado

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

QUEM ME MERECE

 

quem me merece

sabe do estranho

que circula entre o sonho e o sangue

sabe dos meus pés de fumaça

marcando as traças

quem me merece

sabe do tamanho

da distância que procuro

sabe do meu corpo soterrado sob o muro

quem me merece

não merece tanto assombro

sabe que não sonho

sabe das palavras que deixarei sob os escombros

quem me merece sabe que merece

encontrar outro estranho

que não seja tão pontiagudo

tão sem graça tão sem dentes

sem palavras destravadas desmedidas

um estranho que entenda dos artelhos

como quem mergulha em espelhos

quem me merece me pergunto

procuro num poema

mas um poema sempre trata de outro assunto

 

domingo, 2 de agosto de 2020

PINTURA

revelar a cor

sob a folha em branco

isso me comove

há outros gritos na página

mas a cor não fala

escuta o olhar e se espalha


quinta-feira, 30 de julho de 2020

ESPAÇO

não sei o que estou sentindo

sei que não é agora

nem ontem

o que sinto está longe do tempo

é mais espaço e ocupa

cada poro do meu corpo

a parte de fora

a parte de dentro

o que sinto no centro do corpo

o que sinto no centro do mundo

onde não me sinto


terça-feira, 14 de julho de 2020

UM ESTRANHO ANDANDO PELA CASA


hoje acordei com um estranho andando pela casa
no primeiro momento me assustei
depois me acostumei eu perceber que se tratava de um velho
eu não corria perigo
seu rosto era calmo e transmitia confiança
não tinha nada nas mãos
nem no corpo
parecia flutuar embora eu sentisse em mim
todo o peso do seu corpo
ele percorreu toda a casa
até voltar ao quarto e
rindo para mim
se escondeu no espelho

segunda-feira, 13 de julho de 2020

DESLOCAMENTO


tenho os pés
mas não sei para aonde vou
tenho as mãos
e não sei onde tocar
o que sou
nem completei um pedaço
o mundo e eu
não ocupamos o mesmo espaço


domingo, 12 de julho de 2020

OLHAR DESTELHADO



a chuva atravessa o meu olhar destelhado
e me inunda de chumbo
queria ser madeira ou escrever um poema
mas estou muito cansado para isso
permito-me à chuva
e que ela se misture com o que desejo
a maior parte vai ficar com ela
vão olhar para mim e só vão enxergar enxurrada
espero alcançar o mar
ainda com o sal das minhas lágrimas