segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

FORA DOS TRILHOS



quando lembrei dos meus olhos
tudo já havia passado
desci numa estação que desconhecia trens
senti o peso do tempo sobre os meus ossos
espalhados sobre os trilhos
minha pele meus nervos meus músculos
caíam dos sonhos do outono
sem estardalhaço
e sem saber como voltar


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

QUE NÃO SE DESMANCHA


o tempo conta gotas
de um suor que não vem
o sal retido por dentro
conserva essa dor
que derrete tudo
sem desmanchar


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CASA DE PELE


minha casa de pele
não permite passagens
morar é para sempre ou passado
por dentro do sangue enervado
por dentro do músculo enraizado
movimento limitado ao pensamento
que vai até onde a casa pede
um lugar sem presente
sem alicerce para os dentes
construir sorrisos disfarçados
ou morder sem o apetite adequado
minha casa de pele
não tem cor não tem porta nem janelas
vai ter que me sangrar
quem quiser entrar por ela

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

AZUL REDONDO



o dia ameno
nos leva a acreditar
que nunca vamos parar de respirar
o azul do céu sem nuvens
lembra o mar sem espuma
fora do alcance do olho
nossos sonhos flutuam
como peixes
que nunca vamos pescar

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

NUNCA PERGUNTEI PELOS SEUS OSSOS

eu nunca perguntei
como vão seus ossos
eu olhava para a sua carne
como se fosse a alma
eu não enxergava
mas compreendia
a necessidade de alguns reparos
porém os ossos
esses estavam ali
como estavam as árvores
que nos sustentavam
colhíamos frutos
parecidos com sorrisos
embora nunca estivessem maduros
e comíamos lembrando da sede
que embebedou nossa fome
pelos seus ossos
eu nunca perguntei
talvez por isso me abstenha
de recolhê-los
ou moê-los e plantá-los
no canto do muro
que retém o passado
na esperança
que o esqueleto da memória
nos converta em história


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

MEU PERFIL

por mais que eu fuja
meu perfil me segue
já bloqueei já deletei
não teve jeito
não sei como me livrar
desse sujeito
meu perfil me segue
como se fosse
minha sombra
troquei de corpo
troquei de roupa
e o meu perfil
não me deixa
já tentei esquecer
já apresentei queixa
não sei como
resolver esse problema
minha última chance
é escrever esse poema
quem sabe ele se toque
e se entoque
entre as palavras
quem sabe
fique mais calmo
ao se sentir publicado
quem sabe
fique perdido
nas páginas do livro
quem sabe
ele se convence
que esse perfil
não me pertence




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

MAIOR QUE A BOCA

quando a palavra
é maior que a boca
não deve ser dita
deve ser escrita
e por não caber na boca
não deve ser lida
e por não ser lida
não deve ser palavra
deve ser poema
poema não precisa de palavra
precisa da leitura
que caiba na boca
precisa ser dita
mesmo sem palavra
que é escrita
ao ser pronunciada


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ENTENDENDO LIQUIDOS

por não entender os líquidos
não aprendi a amar
amar requer escorrer
desrespeitar fendas
saber ser represado
evaporar sem doer
chover sem sangrar
ser bebido sem ser engasgado
aprender a dançar com o fogo
fingir que está morto gelado
amar requer caber num copo
que não tem fundo



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LEITE DE PEDRA

o leite da pedra
tem gosto de treva
a teta da pedra
entreva a mão
distorce o balde
a sombra da pedra
em constante coice
afeta a cabeça
de quem pensa
extrair da pedra o leite
o leite da pedra
tem cor da dor
de quem ordenha
diante da pedra
e da sede do leite
não se detenha