sábado, 12 de outubro de 2019

BRINQUEDOS


retorno à infância

brincando com as palavras

eu as desmonto espalho

movo removo aponto e escondo

e como todos os brinquedos

de quem não tem medo

aos poucos vão sendo esquecidos

e os brinquedos olham para os donos

como se eles tivessem crescido

entendem o abandono

e se mostram nos sonhos renascidos

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

DEDO EM FLOR


meu dedo nasceu num jardim
sozinho
nem parecia um dedo
parecia um pedaço do medo
que fugia da mão subterrânea
mesmo assim continuou crescendo
e agora aponta para o céu
na sua unha o mundo refletido
o mundo sem sentido
espalha o azul ao redor do dedo
poderia ser outra cor
mas escolheu a cor que acorda mais cedo
assim o sonho do dedo
logo se acaba

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

PARA QUEM MERECE VOAR


pessoas voam quando merecem
nunca passei de um metro
as asas se mereço
não sei o endereço
minhas omoplatas sob o asfalto
arranham os pneus
talvez o mundo seja a minha asa
e o ar a minha casa

sábado, 28 de setembro de 2019

PIOR LUGAR PARA FICAR


pela janela

um pedaço do céu

cumpre o forçado papel

de participar do poema

qualquer pedaço do céu

ou pedaço de qualquer ar

sabe que um poema

não é o melhor lugar

para ficar

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O FABRICANTE DE CÉUS


o poeta exala estrelas
quando fala
exala o céu
quando cala
as estrelas e o céu do poeta
não se encontram em nenhum momento
cabe ao poeta
criar com suas palavras
outros firmamentos

LAGO NO MAR


a nuvem sobre o mar
forma um lago de sombra
peixes desavisados
pensam água doce a sombra
e matam a sede
peixes alucinados
não comovem o azul
logo o que parece cor
refletida ao redor da nuvem
ou do mar refletido do céu
torna-se água
alaga a alucinação e salga

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

SUPERFÍCIL



nem toda palavra afunda
na água
só as mais profundas
águas
aprofundam as palavras
não afundam
quando se aprofundam
permanecem na superfície
do que se funda
a água que finda
a palavra

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

COM MERO TEMPO


gostaria de comer o tempo
mas conheço o seu veneno
ele não me conhece
e me come sem engolir
sua saliva e seus dentes me transformam
nessa massa disforme que sobrevive
graças à fome de comer o tempo

terça-feira, 10 de setembro de 2019

FASES


fizemos as pazes
costurei os sumos aos bagos
o fumo aos tragos
e tudo ficou paralisado
o ar necessário
não alcançou a altura do nariz
repousou na raiz da planta
que não precisa de água
a flor de sopro exala o ar
da paz desnecessária
fizemos as pazes
e não aprendi
a utilizar a agulha
utilizo o não na costura