quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O SILÊNCIO DO MOMENTO


antes soprávamos o rio
e a poesia estava feita
agora nem sei onde estão nossas bocas
e o rio é um til
acentuando um pensamento
sem cabeça


terça-feira, 13 de agosto de 2019

SUPINA


acordo mais firme que forte
amontoo coisas
principalmente
as que preciso descartar
não dou conta de tantas lembranças
e o futuro espera ver minhas costas
no entanto permaneço deitado
sob as coisas que me cobrem
e que se movem
como se fossem meus gestos


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

HEMISFÉRICO


depois vai cada um para o seu lugar
não temos asas
o rio que navegamos não é o mesmo
e o céu não se inclina de maneira fácil
a terra que acompanha também não se precipita
mesmo quando a pele apele
as salivas desaguadas as secreções
misturando segredos
mesmo sem asas
fabricaremos voos inúteis
de falas falhas
vestiremos um futuro já rasgado
e quando o vento invadir a fenda
pensaremos que é apenas um frio
mas sabemos ser uma estação
onde nenhum hemisfério terá passagem


domingo, 4 de agosto de 2019

ORIGINAL



nunca li deus no original
e as traduções que me foram apresentadas
não me tornaram existindo
nem muito menos criado
e não sendo
nem entendendo o sentido
criei outro mundo apagado
onde deus não precisa ser lido


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

TARDE MAIS


sim
conversaremos mais tarde
levarei uma mala de palavras
fora as que estão aqui dentro
e as que vão passar voando
e a gente vai pensar que é passarinho
quando é o avião
carregando a tal mala
para aquele lugar
que ainda não mencionamos


segunda-feira, 29 de julho de 2019

ALMA VELHA


minha alma velha
carrega o meu corpo
em direção ao abandono
minha alma velha
não tem forças
se ampara no mundo
mais velho do que ela
carregar o meu corpo é um engano
há muito foi abandonado
antes que o mundo
houvesse passado
por cima com um pano
e a alma velha
mais morta que cega
vaga pensando que me carrega


segunda-feira, 15 de julho de 2019

PAREDE DO SILÊNCIO


se atravesso a parede do silêncio
sem deixar a sombra
pensam que estou do outro lado
enquanto pisam sobre o que foi deixado
nunca vão entender as linhas do sonho
mesmo apagado sob os olhos
que insistem em permanecer fechados
o que deixo são palavras
porém de pouca utilidade
se ainda fossem entendidas
talvez tivessem uma sobrevida
minhas ações não correspondem
ao meu lugar no mundo
gostaria de interromper
minha maneira de dizer
diante dessa impossibilidade
apenas atravesso a parede do silêncio
fazendo todo esse barulho
espalho os fragmentos dos sonhos
não todos
mas os que possibilitem
reconstituir um despertar menos claro


domingo, 14 de julho de 2019

NOVO SUBMERSO


o novo submerso parte
em duas partes
a parte externa se repete
indefinidamente
a parte interna se reflete
na parte externa
indefinidamente
o novo submerso parte
sem destino e sem esperança
aprende a flutuar
voltando a ser criança
ergue a sombra sobre os ombros
e a espalha no espaço
como uma pipa carregada de lembranças


quinta-feira, 11 de julho de 2019

CINZA


embora alto
o cinza do céu
não sonha
pareço estar perto da água
quando chove
em minha entranha
pareço cinza
embora baixo
escorro de maneira estranha
cavo no céu
caminhos que não cabem
em sua sanha


quarta-feira, 10 de julho de 2019

NA IMPOSSIBILIDADE DE BEIJAR MINHA CABEÇA


não consigo beijar minha cabeça
talvez isso justifique meu humor espalhado
em fatias pelos muros
a cada esquina preciso explicar uma piada
como se fosse um poema
ou explicar um poema
como se fosse uma piada
e a cada explicação a minha cabeça
que nem cheira
necessita que por mim seja cheirada
e eu que nem consigo beijá-la
guardo o meu beijo entre as palavras
e pedes uma explicação para o poema
e eu explico como se fosse uma piada