segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

PAREDE

o artista é uma parede
cujo alicerce não tem sede
embora divida o mundo
entre o que pede e o que perde
está repleto de água contaminada
para não sujar o mundo
inventa outra água mais limpa
transforma a alma numa cacimba
mas não destampa



CARNE DE PRIMEIRA



não estou preocupado com a cor do vento
conseguir respirar já me basta
nem cavar açudes pra esconder a lágrima
nos buracos que faço prefiro me esconder
nessas crateras pés estranhos me esmagam
sabendo que sou terra
não desenho gado pensando no açougue
nenhum desenho ou palavra conseguem me enxergar
estou longe
procurando um gancho onde me pendurar

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

ENTRE BURACOS

a vida devia ser diferente
começar de trás pra frente
e entre o buraco do final
e o buraco inicial
pudéssemos traduzir
a escuridão comum aos dois
do mesmo modo
como o tempo traduz
nossas sombras sem luz


domingo, 7 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PASSOS

para ir
precisarei de passos
não tenho pés
como avançar nesse espaço
posso ir
sem me movimentar
basta pensar
vou a qualquer lugar
vai parecer
que nem estou
me movimentando
quando já estarei
voltando


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

LADOS



o peso do meu corpo desse lado
a vida do outro
intenções no meio
do lado direito asfalto
do esquerdo nem me conte
se havia um coração
agora aos pedaços
mão estendida à espera
de um pedaço de não
que só aparece completo
maior que a palma
derrama ao redor
até formar esse mar

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O OLHAR DO MEU PAI

o olhar do meu pai me cavou
recolheu a entranha sem lavar
e porque estava suja
foi confundida com a alma
que por ter asa
não sabe se é funda
ou se é parada
e voa confusa entre o couro e a clava
sujando de sangue e de sal
por onde meu corpo passou
até alcançar o fundo
de onde meu pai me cavou


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

COMBUSTÍVEL DA DESAVENÇA



Lembrei de Strindberg, ele diz, num dos seus livros, que o Inferno é aqui onde nós estamos, e a pena eterna, segundo ele, consiste em alcançar a felicidade, no entanto, a convivência humana impossibilita que a felicidade não provoque a infelicidade do outro e vice-versa. Lembrei de Strindberg porque quando falamos algo que, para nós, parece um sintoma de felicidade e que queremos mostrar ao outro, por gestos e, principalmente, palavras, esses gestos e essas palavras são entendidos de maneira equivocada, porque mesmo que eu esteja no mesmo terreno do idioma do meu ouvinte, algumas palavras são mal entendidas, mal interpretadas, e a essas palavras que o ouvinte absorve, junta-se os sentimentos que ele carrega dentro de si, juntamente com o sangue que circula no seu corpo, e a essa mistura eu chamaria de combustível da desavença. O outro, ouvinte que não entendeu minha felicidade, vai demonstrar claramente o quanto ficou magoado e, por dentro, consumido pelo combustível da desavença, vai provocar conflitos e, pior, um silêncio alicerçado no desprezo. E por mais que se tente, posteriormente, consertar ou explicar o que as palavras e os gestos queriam dizer, por mais que se tente, o arranhão na relação não vai ser apagado. Aquela cicatriz vai ficar separando, para sempre, uma relação que parecia clara, sem cortes, sem costuras, sem remendos. Portanto, para sair desse inferno strindberguiano, só nos resta conviver o minimamente possível com o outro. Procurar não mais a felicidade, procurar se encontrar, da melhor maneira possível, consigo mesmo, talvez assim, consigamos não interferir na felicidade de outrem.