terça-feira, 12 de dezembro de 2017

SOBRE A INCAPACIDADE DE ABSORVER PALAVRAS

não consigo absorver palavras
elas me cercam feito migalhas
se são faladas não são ouvidas
se são pensadas não são sentidas
as palavras me carregam além das bocas
nas quais trafegam
palavras nem precisam ser o que são
quando escritas passam de mão em mão
até alcançar o vão estupendo do silêncio

sábado, 9 de dezembro de 2017

SEM LEMBRANÇAS

não quero lembranças
memórias machucam
a paisagem que vi já se foi
essa que vejo não me vê
e por não me pertencer
abismo presenças na que vier



QUANDO PENSO EM VOAR

quando penso em voar
falta-me o ar
a linha do pulmão
descreve o espaço
entre o desejo e o abraço
parece costurar caminhos
mas desalinha
asas que nunca faço


LADEIRA A BAIXO

quando você pensa que o coração
rolou ladeira a baixo
ele está te esperando
porque é você que está rolando
até o mundo lá embaixo


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

SOBRE SORRISOS E MORTES

cuido do meu sorriso
como quem cuida da própria morte
organizo um evento
do qual não vou participar
evito espelhos
enquanto houver um estranho
tateio minhas rugas
incrustadas na face
como se ao sorrir fosse possível
evitar a morte


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MÃO DE BORBOLETA

boa viagem de volta
deixe a esperança
e a mão estupenda
de carregar borboletas
porque as asas foram esquecidas
entre a folhagem
e o pó colorido formou essas flores


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

SE DOER AVISE



quando começar a doer me avise
assim eu interrompo
o que eu estava enfiando retiro
espero o momento oportuno
quem vai saber da dor é você
daqui não vai dar para eu ver
a não ser que faça uma careta
mas nem toda careta é de dor
não sei como isso começou
sei que já estamos na metade
e já que estamos aqui
logo chegaremos ao fim
também se não doer
não precisa avisar
sei muito bem onde vou chegar
se assim eu continuar
e se doer e gostar
também não precisa avisar
o que você tem a fazer
é fingir que a careta é de prazer



VOSSO VENTRE

ela expulsou meu ventre
quando eu era insosso
expulsou meu ventre
quando eu saía do estado líquido para o gasoso
ela expulsou meu ventre
como o balão expulsa o ar
lambendo a labareda
provocando náuseas
no tubo do absurdo
ela expulsou meu ventre
entre dentes entrementes
eu nem era boca
enquanto pronunciava
discurso do cinema mudo
ela expulsou meu ventre
sem usar espadas
nem construir paraísos
expulsou sem usar as mãos
nem cavar juízos
nem buscar motivos
expulsou como quem come
como quem some
como quem nome
como quem deita dormente
como quem sonha ter dentes
como se eu tivesse ventre



sábado, 18 de novembro de 2017

SEM TUA AUSÊNCIA ME IGNORO

eu não queria te incomodar com a minha ausência
troquei a chuva pelos vasos
eles te plantam no espaço
enquanto lembram que molhavam
onde era nuvem floriu o estrume
e a raiz fingiu que era de pele
eu não queria me incomodar com a ausência
espalhei espaços onde era abraços
onde era começo avenidas
repletas de curvas equivocadas
então não peça então não meça
fale cada palavra como uma promessa
eu não devia te incomodar com a minha presença
mesmo que eu cale ainda serei corpo
ainda que eu baila ainda serei morto
mesmo que eu falha ficarei absorto
ainda que eu fosse um cais não haveria porto
mesmo que eu nasça ainda serei um aborto


domingo, 5 de novembro de 2017

NUVENS

as nuvens estão pensativas
talvez chovam
talvez sigam
talvez permaneçam
paradas sobre a vida
talvez nunca sejam tocadas
talvez sejam feridas
seria mais fácil dizer
que as nuvens sou eu
porém nunca sonho com o mundo
e no mundo sonhado pelas nuvens
o que se move não sou eu