quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

UM ESCURO E OUTRO, ENTRE

 

a esta regra convém

manter

cega a luz

até que o seu tato alcance

as frestas

espalhadas pelo corpo e

fuja

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

HERANÇA

 

pouco resta antes do fim

e a esse pouco o fogo

depois as cinzas envelopadas

remetidas ao esquecimento

o que sobra do morto além do corpo

os pratos sujos

os musgos nos cantos do banheiro

um espelho partido pendurado na porta do armário

sapatos mofados

roupas tão puídas quanto a vida

páginas virtuais inacessíveis

senhas perdidas

conversas que nunca mais serão ouvidas

móveis obtusos

palavras e tintas

sentimentos que nunca mais serão demonstrados

e o silêncio pelo mundo repetido

DIRIGÍVEL

 

com vagar demonstro o meu ódio

arranco as pétalas curtas

as longas me engolem

das casas plantadas entre os jardins

pessoas infladas aguardam do céu

um azul possível navegar

 

domingo, 21 de novembro de 2021

SOMBRA SUSPENSA

a umidade do rio não altera o meu corpo

que a contragosto me acompanha

desenhando poças em cada passo

em direção ao poço

em cujo pescoço a lua projeta os espasmos

do corpo pendurado

e o chão distante observa o pesadelo

por um ângulo sem medo

de acordar o instante

 

  

domingo, 31 de outubro de 2021

NERVO ÓTICO

 meu nervo ótico

desorganiza as flores

o jardim perde a raiz  sem tropeçar

as cores inundam a hora

sem utilizar os cílios

ocupam um espaço sem agora

perfumes significam mais paisagem

além da permitida

sem respirar é outra vida

meu nervo ótico

mais do mundo que meu

provoca um furo no escuro

domingo, 29 de agosto de 2021

TRANSLUCIDEZ

 

deveria ter bebido

talvez até me embriagado

assim deixaria o meu corpo de lado

e ao ser descoberto abandonado

seria dado como morto

seria velado e enterrado

talvez até cremado conforme o combinado

deveria ter me embriagado

e ao retornar ao meu corpo ainda bêbado

por certo ainda cedo

não o reconheceria como a minha propriedade

talvez o enxergasse

como paisagem desprovida de gente

uma paisagem sem flores

onde as árvores queimassem

como se não sentissem dores

deveria ter me embriagado

assim não teria esse corpo

não estaria absorto no meio dessas palavras

esperando a minha vez

na fila da lucidez

CRUZANDO A PONTE BUARQUE DE MACEDO

 

 Cruzei a Ponte Buarque de Macedo

muito bêbado

muito emaconhado

mareado

flutuando quase alado

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

chocado

dentro de um ovo carregado pelo povo

desarmado de concreto

nem cheguei do outro lado

do passado

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

com muito medo

mas já era tarde para trocar de medo

ou muito cedo

para saber que o medo não tem lado

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

enrabado pelo galo

empurrado por um falo que parecia anormal

mas pela cor e pelo cheiro

era apenas carnaval

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

carregando a minha cruz

muito antes de Jesus

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

na ponta dos pés

na ponta dos dedos

para não mostrar ao rio os meus segredos

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

carregado por parentes

dentro de um esquife indecente

com as alças cravejadas por meus dentes

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

um pouco mais cedo do que o estipulado

e quanto mais tempo cedo

mais tempo tenho acumulado

cruzei a Ponte Buarque de Macedo

e para o rio não importa

se permaneço imóvel ou sigo para algum lado

o rio só me entende

enquanto permaneço calado

 

domingo, 13 de junho de 2021

ESTAÇÃO

uma primavera enfiada entre as rosas

fere as bromélias

eu te expliquei que as flores não se explicam

nem as palavras

mesmo assim as usasse para enfeitá-las

essas palavras nas malas

imaginando a primavera uma estação