terça-feira, 14 de agosto de 2018

PARA ONDE VÃO AS DORES


para onde vão as cores
quando as borboletas dormem
para onde vão as dores
quando as pessoas morrem
eu sei esse lugar
onde as palavras não podem entrar
onde borboletas e pessoas
se misturam com o escuro
e o infinito se acumula
até formar um muro


terça-feira, 7 de agosto de 2018

APENAS UM RISCO NA PAREDE



a dor já está quase passando
daqui a pouco você nem vai sentir mais nada
ao mesmo tempo
a ferida vai se fechar quase sem você perceber
e vai descobrir que ficou a cicatriz
que também com o tempo
nem vai mais ser percebida
vai parecer um risco na parede da pele
ou um traço de uma pintura malfeita
e você vai constatar
mas não vai contar para ninguém
que por dentro a vida é imperfeita

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

MAEVE JINKINGS


eu vejo você na lua
mas parece que é tão perto
parece a pele da gente
que está no teto
repleto de estrelas
repleto
como se fôssemos as estrelas no teto
que ao te ver tão perto
pensasse que a lua fosse a nossa pele
mais perto


sábado, 21 de julho de 2018

CANTO EMPALHADO


o canto do passarinho empalhado
corta a tarde
como um brinquedo de corda
nós sabemos que em determinado momento
ele vai parar
mas enquanto canta
espanta o pensamento
do empalhamento


quinta-feira, 19 de julho de 2018

PAISAGEM EMPALHADA


passarinho pousado
no último galho da árvore
bica a paisagem empalhada
que disfarça estar viva
e se rasga
em vários cantos


terça-feira, 17 de julho de 2018

DORIDO


o amor furou a dor
pelo lado de dentro
a dor caminhou para o centro
e do peito perfurado
retirou todo o amor
que havia guardado
o amor recolheu todo o amor da dor
como se fosse algo
que pudesse ser recolhido
e usou para cobrir o espaço
por onde a dor havia saído

quinta-feira, 12 de julho de 2018

FORA DO PEITO


meu coração bate sem mim
meu corpo prossegue sem mim
não consigo me situar em nenhum aparelho
o mundo é um estranho que me ultrapassa
e me pergunta onde é a estrada
aponto para baixo
para o fundo
da minha asa


sábado, 7 de julho de 2018

COM OS PÉS VIRADOS PARA A RUA


meus pés ainda não estão virados para a rua
transfiro o meu corpo para o sonho de alguém
mas não me mostro
pareço uma sombra que se confunde com uma árvore
meus frutos são enxutos
porém repletos de sangue
crescem a cada olhar
e dos olhos partem um sono que goteja
retorno meu corpo para onde não há portas
permaneço para sempre do lado de fora
as horas se transformam em meu esqueleto
o tempo é amigo dos segredos
tudo que eu sei não cabe em todas as palavras
espero que meus pés virados para a rua
suspendam as janelas

sexta-feira, 29 de junho de 2018