segunda-feira, 10 de agosto de 2020

QUEM ME MERECE

 

quem me merece

sabe do estranho

que circula entre o sonho e o sangue

sabe dos meus pés de fumaça

marcando as traças

quem me merece

sabe do tamanho

da distância que procuro

sabe do meu corpo soterrado sob o muro

quem me merece

não merece tanto assombro

sabe que não sonho

sabe das palavras que deixarei sob os escombros

quem me merece sabe que merece

encontrar outro estranho

que não seja tão pontiagudo

tão sem graça tão sem dentes

sem palavras destravadas desmedidas

um estranho que entenda dos artelhos

como quem mergulha em espelhos

quem me merece me pergunto

procuro num poema

mas um poema sempre trata de outro assunto

 

domingo, 2 de agosto de 2020

PINTURA

revelar a cor

sob a folha em branco

isso me comove

há outros gritos na página

mas a cor não fala

escuta o olhar e se espalha


quinta-feira, 30 de julho de 2020

ESPAÇO

não sei o que estou sentindo

sei que não é agora

nem ontem

o que sinto está longe do tempo

é mais espaço e ocupa

cada poro do meu corpo

a parte de fora

a parte de dentro

o que sinto no centro do corpo

o que sinto no centro do mundo

onde não me sinto


terça-feira, 14 de julho de 2020

UM ESTRANHO ANDANDO PELA CASA


hoje acordei com um estranho andando pela casa
no primeiro momento me assustei
depois me acostumei eu perceber que se tratava de um velho
eu não corria perigo
seu rosto era calmo e transmitia confiança
não tinha nada nas mãos
nem no corpo
parecia flutuar embora eu sentisse em mim
todo o peso do seu corpo
ele percorreu toda a casa
até voltar ao quarto e
rindo para mim
se escondeu no espelho

segunda-feira, 13 de julho de 2020

DESLOCAMENTO


tenho os pés
mas não sei para aonde vou
tenho as mãos
e não sei onde tocar
o que sou
nem completei um pedaço
o mundo e eu
não ocupamos o mesmo espaço


domingo, 12 de julho de 2020

OLHAR DESTELHADO



a chuva atravessa o meu olhar destelhado
e me inunda de chumbo
queria ser madeira ou escrever um poema
mas estou muito cansado para isso
permito-me à chuva
e que ela se misture com o que desejo
a maior parte vai ficar com ela
vão olhar para mim e só vão enxergar enxurrada
espero alcançar o mar
ainda com o sal das minhas lágrimas

sexta-feira, 3 de julho de 2020

HERBÁRIO



passei toda a tarde chorando
sem nenhum motivo
os olhos não precisam
eles mostram o meu lugar no mundo
o chão dos meus pés são plantas
que arranco a cada passo

quarta-feira, 24 de junho de 2020

FRATURA EXPOSTA


osso de preto é branco
osso de branco é branco
como é vermelho o sangue de ambos
o cego preto não enxerga o branco
o cego branco não enxerga o preto
é necessário alguém dizer ao cego branco
que o rosto que ele toca é de um preto
como ao cego preto também é dito
mas para ambos isso não tem o menor significado
o tato não reconhece a cor
o tato é de fato o ato
do sentimento do formato do outro
o outro é o que o tato sente
o tato é o que é sentido
onde não há sentido sentir a cor
como para ambos não importa
se a cor do osso é a mesma
se a cor do sangue é a mesma
o tato não alcança a cor do osso
nem a cor do sangue sob o pescoço
nem a cor que cobre a pele
nem a cor do amor nem a cor do ódio
para um cego
todas as cores estão longe
como deveria ser para todos que enxergam
olhar para o outro
com o olhar do tato
sem precisar expor o sangue
sem precisar expor o osso

segunda-feira, 8 de junho de 2020

ENQUANTO MEUS AMIGOS ME CARREGAM


preciso distribuir o peso do meu corpo
entre os meus amigos
esquecer a forma das labaredas
tornar possível meus ossos
meus nervos meus cabelos
nas suas mãos em concha
deixar parecer ser água
toda essa angústia
e que ela fuja
entre os seus dedos
que eles não tenham medo
ao descobrir o ralo entupido

MAMÍFEROS RECOLHIDOS


mamilo e boca
parecia fácil
porém entre os dois o escuro
e os desenhos imaginários
o que parecia saliva era lágrima
o que parecia mel era sangue
poucas sementes suportam a luz
algumas permanecem ocultas
e exploram outros compartimentos
outras entendem a claridade
e alongam pulmões de galhos
permitem à boca o toque
com o mamilo envenenado