segunda-feira, 15 de julho de 2019

PAREDE DO SILÊNCIO


se atravesso a parede do silêncio
sem deixar a sombra
pensam que estou do outro lado
enquanto pisam sobre o que foi deixado
nunca vão entender as linhas do sonho
mesmo apagado sob os olhos
que insistem em permanecer fechados
o que deixo são palavras
porém de pouca utilidade
se ainda fossem entendidas
talvez tivessem uma sobrevida
minhas ações não correspondem
ao meu lugar no mundo
gostaria de interromper
minha maneira de dizer
diante dessa impossibilidade
apenas atravesso a parede do silêncio
fazendo todo esse barulho
espalho os fragmentos dos sonhos
não todos
mas os que possibilitem
reconstituir um despertar menos claro


domingo, 14 de julho de 2019

NOVO SUBMERSO


o novo submerso parte
em duas partes
a parte externa se repete
indefinidamente
a parte interna se reflete
na parte externa
indefinidamente
o novo submerso parte
sem destino e sem esperança
aprende a flutuar
voltando a ser criança
ergue a sombra sobre os ombros
e a espalha no espaço
como uma pipa carregada de lembranças


quinta-feira, 11 de julho de 2019

CINZA


embora alto
o cinza do céu
não sonha
pareço estar perto da água
quando chove
em minha entranha
pareço cinza
embora baixo
escorro de maneira estranha
cavo no céu
caminhos que não cabem
em sua sanha


quarta-feira, 10 de julho de 2019

NA IMPOSSIBILIDADE DE BEIJAR MINHA CABEÇA


não consigo beijar minha cabeça
talvez isso justifique meu humor espalhado
em fatias pelos muros
a cada esquina preciso explicar uma piada
como se fosse um poema
ou explicar um poema
como se fosse uma piada
e a cada explicação a minha cabeça
que nem cheira
necessita que por mim seja cheirada
e eu que nem consigo beijá-la
guardo o meu beijo entre as palavras
e pedes uma explicação para o poema
e eu explico como se fosse uma piada

sábado, 6 de julho de 2019

MAIS SILÊNCIO QUE PALAVRAS


Para G.Vieira

respeito mais o silêncio
do que as palavras
a forma do silêncio me afaga
e me molda ao que desconheço
me acomoda ao que menos pareço
as palavras que não mereço
e que por vezes me abraçam
nunca ultrapassam
isso que escrevo

sexta-feira, 5 de julho de 2019

RECOLHENDO PEDRAS


comecei a recolher as pedras
como se fosse morrer
primeiro as maiores depois as menores
como se existisse
a possibilidade da morte
enxergar as pedras menores
torna as maiores que a morte
como se consistisse
considerar o tamanho
da morte se ela existisse
recolheria as pedras
como pudesse ocorrer
os tamanhos diversos da morte


quarta-feira, 19 de junho de 2019

VOCAÇÃO PARA O INFINITO


nunca tive
vocação para
o infinito
todo meu 
gesto
é
curto
maleável
fácil
mover-me
não me
tira daqui
permaneço
por toda
parte
limitado
ao acaso
infinito



terça-feira, 11 de junho de 2019

INCONTINÊNCIA URINÁRIA


a felicidade da incontinência urinária
é saber que os rins estão funcionando
as palavras derramadas no papel
por mais inconvenientes que sejam
mostram que a cabeça está funcionando
porém nem sempre funciona bem
esfíncter deteriorado
torna a bexiga um poço sem fundo
a fralda geriátrica é prática mas não é ecológica
a cabeça está funcionando
e despeja essas palavras aqui
devem causar algum mal estar
mas não estou nem aí pra isso
estou imóvel sentindo o calor da urina
entre a minha virilha e a superfície porosa da fralda
o mesmo que algumas palavras provocam
quando se colocam entre o olhar estranho
e a superfície inútil do neurônio
meus rins estão funcionando
é o que diz a minha cabeça
sugo o soro pela boca da veia
balbucio palavras entre os espaços das teias


quinta-feira, 23 de maio de 2019

SURTO


aproveito o surto e fico mudo
deposito a poesia
no fundo do meu corpo
imóvel
não permito que ela cresça

sábado, 11 de maio de 2019

AQUÁRIOS


observo um cardume
de tubarões-martelo
vindo em direção
 à janela do meu quarto
devo estar sonhando
diz um deles
vejo um homem
dentro de um aquário