sexta-feira, 17 de maio de 2024

SEDE

 um poema

escrito

na água

cumpre sua

função 

de sede



SIM TE CHAMO

converter a pétala

ao seu ponto de

origem da cor

melhor lembrar

o azul imaginário

pendurado entre

o poro e o amparo

 

assim te chamo

ou não declaro

sinto porque

do som surgir

novo estuário

 

assim te inflamo

longe do fogo

assim te amo

longe do fogo

longe da pedra

longe da lavra

longe do jogo

longe da palavra

assim te amo

 

 

sexta-feira, 26 de abril de 2024

IMUNIDADE

minha baixa imunidade

não me permite tocar as palavras

esse meu silêncio

pelo que me lembro

antecipa meus ossos

 

gostaria de ver meu corpo florir

antes da primavera

mas o inverno me cobre

incólume

 

a água ultrapassa os limites

e me transborda com ela

as estações elegantes

me carregam nas suas lapelas

segunda-feira, 29 de maio de 2023

DEPOIS QUE MORREM

 sei para onde vão as mães

depois que morrem

a saudade forma um túnel

e a luz que vem

em sentido contrário

as transformam em cinzas e ossos

 

sei para onde vão os automóveis

depois que morrem

o desejo forma uma esteira

nivelando tudo ao solo

e os transformam em borracha e óleo

 

não sei para onde vão os poemas

depois que morrem

aqui por exemplo

deveria ser outra palavra

e aqui outra

e ali outra

ESPERAR

 cansei de esperar pessoas

espero coisas

espero a noite carregada de anexos

estrelas nuvens escondidas

lua sobreposta à cicatriz do céu

a escuridão ancorada na memória

depois virão outras coisas

talvez carregadas de pessoas inesperadas

talvez livres me abracem

como seu eu fosse

uma coisa qualquer

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

BEIRA DO LUGAR

vou aonde me cabe

onde me sobra

aonde me cobra

estar por fora


vou aonde me acende

onde me entende

onde me aguarda

estar ausente


vou aonde me dobra

onde me sopra

aonde me prega

estar para sempre

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

RUA BENFICA

 

o mais antigo

numa casa antiga

é o silêncio

divide o corredor com o tempo

ambos trôpegos

quase abraçados

espalham grossas paredes

e quando respiram

expiram outras casas

enfileiram ruas

trocam passos por automóveis

tudo é frágil e transitório

o mal não sabe o que significa

a rua não sabe onde acaba

e o bem fica pendurado numa placa

SEDE

 um poema escrito na água cumpre sua função  de sede