quinta-feira, 19 de julho de 2018

PAISAGEM EMPALHADA


passarinho pousado
no último galho da árvore
bica a paisagem empalhada
que disfarça estar viva
e se rasga
em vários cantos


terça-feira, 17 de julho de 2018

DORIDO


o amor furou a dor
pelo lado de dentro
a dor caminhou para o centro
e do peito perfurado
retirou todo o amor
que havia guardado
o amor recolheu todo o amor da dor
como se fosse algo
que pudesse ser recolhido
e usou para cobrir o espaço
por onde a dor havia saído

quinta-feira, 12 de julho de 2018

FORA DO PEITO


meu coração bate sem mim
meu corpo prossegue sem mim
não consigo me situar em nenhum aparelho
o mundo é um estranho que me ultrapassa
e me pergunta onde é a estrada
aponto para baixo
para o fundo
da minha asa


sábado, 7 de julho de 2018

COM OS PÉS VIRADOS PARA A RUA


meus pés ainda não estão virados para a rua
transfiro o meu corpo para o sonho de alguém
mas não me mostro
pareço uma sombra que se confunde com uma árvore
meus frutos são enxutos
porém repletos de sangue
crescem a cada olhar
e dos olhos partem um sono que goteja
retorno meu corpo para onde não há portas
permaneço para sempre do lado de fora
as horas se transformam em meu esqueleto
o tempo é amigo dos segredos
tudo que eu sei não cabe em todas as palavras
espero que meus pés virados para a rua
suspendam as janelas

sexta-feira, 29 de junho de 2018

segunda-feira, 25 de junho de 2018

RECOLHIMENTO DO CORPO


ninguém vai recolher o meu corpo
ele vai ficar aqui junto com o osso
junto com a carne e o nervo
parecerá outro
mas sempre será o mesmo
mesmo confundido com a morte
mesmo pobre mesmo podre
assumirá o risco de ter desaparecido
mesmo sendo visto
não será recolhido
permanecerá sendo noite
mesmo enquanto amanhecido

terça-feira, 29 de maio de 2018

CEMITÉRIO


gente que nunca mais vou ver
gente que nunca mais vai me ver
gente que não quero ver nunca mais
gente que não quer me ver nunca mais
gente que eu nunca quis ver
gente que nunca quis me ver
gente que não tá nem aí
gente que não tá nem aqui
nem acolá nem ali
nem vai estar
nem vai voltar
nem vai ficar
gente que não sabe nem que eu existo
gente que existia e eu nem sabia
gente que passou por aqui
quando eu não estava
gente que não estava
quando eu passei por aqui
gente que sentou ao meu lado
e eu não conhecia
gente que me conhecia
sentou ao meu lado
mas ficou calado
assim como eu fiquei
quando sentei ao lado
de quem eu conhecia e não falei
gente que vai ficar
lado a lado comigo
mesmo sem saber
que está ao meu lado
para sempre calado
calado para sempre
calado
parado no escuro
de um buraco
com fundo
mas que no fundo
nem adianta muito
ter fundo
deveríamos todos ir para o outro lado
o lado onde não houvesse fundo
nem houvesse mundo
onde precisasse conhecer alguém
pra ficar ao teu lado cabisbaixo
esperando uma resposta
que não vem



segunda-feira, 21 de maio de 2018

ESTOCÁSTICO


quanto mais me aproximo da morte
menos tenho pressa
quem já bebeu água no deserto
sabe do que estou falando
quem já moveu sem saber onde pesa
quem já se deixou lavar pela sonda
agradeceu ao pulso pelo sangue derramado
ao corpo a dor sentida
quem já falou
sem atualizar a garganta
e com esse gesto
produziu borboletas ao invés de palavras
sabe da primavera dos voos
entre migalhas
sabe do que estou faltando


quarta-feira, 16 de maio de 2018

DISCURSO INTERNO


passei horas
preparando o discurso
e agora que estou aqui
diante de você
e os seus olhos
empurram os meus
para dentro da minha cabeça
e neste momento
revejo de perto
o discurso ensaiado
não permito que meus olhos saiam
permaneço me olhando por dentro
e descubro que o melhor
é ficar comigo mesmo
aqui por dentro
despenso o discurso dispenso
não devolvo o olhar para fora
caminho ainda mais para dentro
e me deixo sozinho
para sempre