segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ENTENDENDO LIQUIDOS

por não entender os líquidos
não aprendi a amar
amar requer escorrer
desrespeitar fendas
saber ser represado
evaporar sem doer
chover sem sangrar
ser bebido sem ser engasgado
aprender a dançar com o fogo
fingir que está morto gelado
amar requer caber num copo
que não tem fundo



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LEITE DE PEDRA

o leite da pedra
tem gosto de treva
a teta da pedra
entreva a mão
distorce o balde
a sombra da pedra
em constante coice
afeta a cabeça
de quem pensa
extrair da pedra o leite
o leite da pedra
tem cor da dor
de quem ordenha
diante da pedra
e da sede do leite
não se detenha


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

POR ONDE VAZA O MEU CORPO


amanheci com um gosto de insônia na boca
pensei mastigar sonhos eram desejos
da noite porosa vazou meu corpo
entre uma estrela e outra
meus sonhos apagados


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

PAREDE

o artista é uma parede
cujo alicerce não tem sede
embora divida o mundo
entre o que pede e o que perde
está repleto de água contaminada
para não sujar o mundo
inventa outra água mais limpa
transforma a alma numa cacimba
mas não destampa



CARNE DE PRIMEIRA



não estou preocupado com a cor do vento
conseguir respirar já me basta
nem cavar açudes pra esconder a lágrima
nos buracos que faço prefiro me esconder
nessas crateras pés estranhos me esmagam
sabendo que sou terra
não desenho gado pensando no açougue
nenhum desenho ou palavra conseguem me enxergar
estou longe
procurando um gancho onde me pendurar

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

ENTRE BURACOS

a vida devia ser diferente
começar de trás pra frente
e entre o buraco do final
e o buraco inicial
pudéssemos traduzir
a escuridão comum aos dois
do mesmo modo
como o tempo traduz
nossas sombras sem luz


domingo, 7 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PASSOS

para ir
precisarei de passos
não tenho pés
como avançar nesse espaço
posso ir
sem me movimentar
basta pensar
vou a qualquer lugar
vai parecer
que nem estou
me movimentando
quando já estarei
voltando


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

LADOS



o peso do meu corpo desse lado
a vida do outro
intenções no meio
do lado direito asfalto
do esquerdo nem me conte
se havia um coração
agora aos pedaços
mão estendida à espera
de um pedaço de não
que só aparece completo
maior que a palma
derrama ao redor
até formar esse mar

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O OLHAR DO MEU PAI

o olhar do meu pai me cavou
recolheu a entranha sem lavar
e porque estava suja
foi confundida com a alma
que por ter asa
não sabe se é funda
ou se é parada
e voa confusa entre o couro e a clava
sujando de sangue e de sal
por onde meu corpo passou
até alcançar o fundo
de onde meu pai me cavou