sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

POEMA COM EXPLICAÇÃO NO RODAPÉ


da meditação pincei uns dias
dispostos em desordem
ao redor do corpo pertencente
a uma sombra que desconheço
porque a luz tomou tudo
de modo que os olhos
tornaram-se inúteis
e o que precisa ser iluminado
apenas terá sentido se for visto
toda a essa luz no rodapé da página
afasta a possibilidade de leitura
e inutiliza tudo o que foi escrito até aqui

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

ANIMOCIDADE


assim como as aranhas tecem no escuro
e o musgo faz crescer o muro
órfãos são transplantados
de um corpo para o outro
sem a necessária umbilical ausência
assumem um tamanho
em que o mundo não precisa de essência
deixam de se aguardar
e se agarram às entranhas
do mesmo modo como o muro
se ampara no músculo da aranha


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

ESTOL


eu tenho uma dor no teu peito
como se o meu coração tivesse asas
mas não soubesse voar
cruzasse o céu da tua casa
usando um motor para planar
e se pousasse
não caberia o lugar


domingo, 16 de fevereiro de 2020

BUCETA DE SEREIA


a buceta da sereia é clara
como a água e a areia
a água da torneira a água do mar
e a areia da praia
a buceta da sereia
não se espalha
escamada escondida acalmada
é mais um canto que uma carne
é mais encanto que uma pele
que se revele depilada ou cabeluda
que se revele desnuda
é um destino para o desencanto
para qualquer glande um espanto
para qualquer vulva ficar muda
a buceta da sereia
parece que nem existe
mas seu encanto permite
sua presença num poema