sexta-feira, 27 de março de 2015

AÉREA IV

morar no alto do sonho
e queda adiada
para isso servem as asas

AÉREA III

a poesia é um ar irrespirável
inocentes os que a respiram
pensando salvar os pulmões
a mancha produzida
é imperceptível a olho nu
mas no espaço 
é formado um buraco
do tamanho que faço


AÉREA II

minha cabeça atravessa o espaço
e pousa entre os escombros
planeta tal é o meu olho
meus dedos são estrelas
esse corpo que enxergam
pensando que é o meu
é o fragmento de algo que não sinto

AÉREA I

as nuvens seguram o céu
por fios quase invisíveis
não contem a ninguém
os fios são segredos

quinta-feira, 26 de março de 2015

TERRENA IV

a vida
é outro tipo de morte
digo isso com o dia
pendurado na cabeça
um sol menor que a minha boca
aquece essas palavras
melhor não olhar profundo
esconda o olho onde alguém possa ver
quem sabe com um pouco de sorte
a vida seja a morte

TERRENA III

por mais que eu tente
não consigo enxergar todo o meu território
uso binóculos
lunetas
envio mensageiros
que nunca retornam
introduzo o meu corpo
em algum sonho
ou finjo que estou dormindo
o mundo me sacode e me joga contra as suas paredes
acordo aos pedaços
e sem saber aonde caibo

TERRENA II


as frutas provocam um hiato
entre a flor e a fome
as fomes murcham
com o tempo
as flores formam uma estranha
parceria

TERRENA I

as raízes cruzam o meu crânio
e cravam a minha cabeça contra o fundo
o mundo é escuro por dentro
não sinto mais medo


quarta-feira, 25 de março de 2015

MARINHA IV


subimos o rio

à altura do mar

barcas impacientes

cravaram suas quilhas

em nuvens desmaiadas

marinheiro sabe

qual o sentido do arrepio

desfralda a pele

poreja leve

e mergulha na pedra

que sonha ser água

MARINHA III



súbito

o barco encontra o fim

mais chuva que água no córrego

MARINHA II


cavalos marinhos

pisotearam os meus sonhos

eram de sal

repletos de culpas

nunca alcançaram o chão

MARINHA I



a linha azul

do horizonte

dividiu meus olhos

a parte de cima

ficou com o azul

que eu não permaneço

a parte de dentro

escurecimento

terça-feira, 24 de março de 2015

CORAÇÃO BOM


meu coração é bom

bate numa só pessoa

e o sangue desse espancamento

fica só entre nós dois

meu coração é bom

nasceu para me desobedecer

nunca para quando peço

para quando bem entender

terça-feira, 17 de março de 2015

PORO DA BORBOLETA

o chão está muito frio
preciso ler mais poesia
vestir de graça o meu couro
pensar na possibilidade do retorno
da minha alma ao local de origem
exatamente onde as borboletas
porejam suas cores

sexta-feira, 13 de março de 2015

POEIRA

poesia não parece com papel
mas sem ele
como ela ficaria?
poesia parece com um sopro
sem a boca
o sopro que vem
não sabe de onde
enche os olhos de pó
entre os dentes o pó
forma essa poeira
que não assenta nunca


terça-feira, 10 de março de 2015

A FELICIDADE DA TARDE

a tarde sentou-se ao lado de uma árvore
calmamente
porque esse é o modo correto de sentar-se ao lado de uma árvore
as duas sabem disso

no pensamento da árvore prevalece tons verdes
diferente da tarde que pensa em branco

ambas querem fugir
mas quando o transeunte tira fotos
fingem que estão felizes
ficam verdes ficam brancas
fazem um grande esforço
para não estragar a foto

a tarde permanece calma
anoitecendo o pensamento



FLOR ABERTA


abro a flor na página
nenhuma palavra angustiada
a pétala se esquece de ser cor
parece a flor inteira sem perfume
deixa no ar o que queremos ver
sem usar os olhos


quinta-feira, 5 de março de 2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

CARREGADO

o guarda-chuva evita
molhar os meus cabelos
mas a chuva guardada na minha cabeça
carrega de água os meus olhos


CRAVOS FRATURADOS

a tarde merecia gafanhotos
apesar de triste
dobrei a esquina em quatro partes
deixei a rua de fora
e seus sistemas de amparar pessoas
mesmo assim liguei à vista
quadrados molhados de sombras
pareciam calmos
mas penetravam atentos
como se calvos fossem
como se pusessem à mesa
cravos fraturados


SÓ PRA SABER QUE TE AMO

  tudo que vai nos seus cabelos quando você sorrir sai daqui   desse poema ou do que sinto quando minto ao não dizer   t...