terça-feira, 26 de dezembro de 2017

LADOS



o peso do meu corpo desse lado
a vida do outro
intenções no meio
do lado direito asfalto
do esquerdo nem me conte
se havia um coração
agora aos pedaços
mão estendida à espera
de um pedaço de não
que só aparece completo
maior que a palma
derrama ao redor
até formar esse mar

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O OLHAR DO MEU PAI

o olhar do meu pai me cavou
recolheu a entranha sem lavar
e porque estava suja
foi confundida com a alma
que por ter asa
não sabe se é funda
ou se é parada
e voa confusa entre o couro e a clava
sujando de sangue e de sal
por onde meu corpo passou
até alcançar o fundo
de onde meu pai me cavou


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

COMBUSTÍVEL DA DESAVENÇA



Lembrei de Strindberg, ele diz, num dos seus livros, que o Inferno é aqui onde nós estamos, e a pena eterna, segundo ele, consiste em alcançar a felicidade, no entanto, a convivência humana impossibilita que a felicidade não provoque a infelicidade do outro e vice-versa. Lembrei de Strindberg porque quando falamos algo que, para nós, parece um sintoma de felicidade e que queremos mostrar ao outro, por gestos e, principalmente, palavras, esses gestos e essas palavras são entendidos de maneira equivocada, porque mesmo que eu esteja no mesmo terreno do idioma do meu ouvinte, algumas palavras são mal entendidas, mal interpretadas, e a essas palavras que o ouvinte absorve, junta-se os sentimentos que ele carrega dentro de si, juntamente com o sangue que circula no seu corpo, e a essa mistura eu chamaria de combustível da desavença. O outro, ouvinte que não entendeu minha felicidade, vai demonstrar claramente o quanto ficou magoado e, por dentro, consumido pelo combustível da desavença, vai provocar conflitos e, pior, um silêncio alicerçado no desprezo. E por mais que se tente, posteriormente, consertar ou explicar o que as palavras e os gestos queriam dizer, por mais que se tente, o arranhão na relação não vai ser apagado. Aquela cicatriz vai ficar separando, para sempre, uma relação que parecia clara, sem cortes, sem costuras, sem remendos. Portanto, para sair desse inferno strindberguiano, só nos resta conviver o minimamente possível com o outro. Procurar não mais a felicidade, procurar se encontrar, da melhor maneira possível, consigo mesmo, talvez assim, consigamos não interferir na felicidade de outrem.

O LUGAR DO AMOR

o amor é fácil
o problema é guardá-lo
se for num armário
vai precisar de porta
e a porta uma chave
e a chave um bolso para guardá-la
outro problema é encontrar o chaveiro
que consiga fazer a tal chave
possível de encaixe na fechadura
se for guardar num espelho
vai ser preciso coragem
para se encarar
ou encontrar uma boa pedra
para quebrar
se for guardar no peito
vai ter que combinar
com o coração
para não haver rejeição
difícil guardar o amor
se deixá-lo ao relento
quem garante que o vento
vai deixá-lo intacto
ou que o sol e a chuva
vão fazer uma curva
para não tocá-lo
o amor é fácil
então pra que guardar
melhor deixá-lo
fora de lugar

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

SOBRE A INCAPACIDADE DE ABSORVER PALAVRAS

não consigo absorver palavras
elas me cercam feito migalhas
se são faladas não são ouvidas
se são pensadas não são sentidas
as palavras me carregam além das bocas
nas quais trafegam
palavras nem precisam ser o que são
quando escritas passam de mão em mão
até alcançar o vão estupendo do silêncio

sábado, 9 de dezembro de 2017

SEM LEMBRANÇAS

não quero lembranças
memórias machucam
a paisagem que vi já se foi
essa que vejo não me vê
e por não me pertencer
abismo presenças na que vier



QUANDO PENSO EM VOAR

quando penso em voar
falta-me o ar
a linha do pulmão
descreve o espaço
entre o desejo e o abraço
parece costurar caminhos
mas desalinha
asas que nunca faço


LADEIRA A BAIXO

quando você pensa que o coração
rolou ladeira a baixo
ele está te esperando
porque é você que está rolando
até o mundo lá embaixo


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

SOBRE SORRISOS E MORTES

cuido do meu sorriso
como quem cuida da própria morte
organizo um evento
do qual não vou participar
evito espelhos
enquanto houver um estranho
tateio minhas rugas
incrustadas na face
como se ao sorrir fosse possível
evitar a morte