terça-feira, 29 de maio de 2018

CEMITÉRIO


gente que nunca mais vou ver
gente que nunca mais vai me ver
gente que não quero ver nunca mais
gente que não quer me ver nunca mais
gente que eu nunca quis ver
gente que nunca quis me ver
gente que não tá nem aí
gente que não tá nem aqui
nem acolá nem ali
nem vai estar
nem vai voltar
nem vai ficar
gente que não sabe nem que eu existo
gente que existia e eu nem sabia
gente que passou por aqui
quando eu não estava
gente que não estava
quando eu passei por aqui
gente que sentou ao meu lado
e eu não conhecia
gente que me conhecia
sentou ao meu lado
mas ficou calado
assim como eu fiquei
quando sentei ao lado
de quem eu conhecia e não falei
gente que vai ficar
lado a lado comigo
mesmo sem saber
que está ao meu lado
para sempre calado
calado para sempre
calado
parado no escuro
de um buraco
com fundo
mas que no fundo
nem adianta muito
ter fundo
deveríamos todos ir para o outro lado
o lado onde não houvesse fundo
nem houvesse mundo
onde precisasse conhecer alguém
pra ficar ao teu lado cabisbaixo
esperando uma resposta
que não vem



segunda-feira, 21 de maio de 2018

ESTOCÁSTICO


quanto mais me aproximo da morte
menos tenho pressa
quem já bebeu água no deserto
sabe do que estou falando
quem já moveu sem saber onde pesa
quem já se deixou lavar pela sonda
agradeceu ao pulso pelo sangue derramado
ao corpo a dor sentida
quem já falou
sem atualizar a garganta
e com esse gesto
produziu borboletas ao invés de palavras
sabe da primavera dos voos
entre migalhas
sabe do que estou faltando


quarta-feira, 16 de maio de 2018

DISCURSO INTERNO


passei horas
preparando o discurso
e agora que estou aqui
diante de você
e os seus olhos
empurram os meus
para dentro da minha cabeça
e neste momento
revejo de perto
o discurso ensaiado
não permito que meus olhos saiam
permaneço me olhando por dentro
e descubro que o melhor
é ficar comigo mesmo
aqui por dentro
despenso o discurso dispenso
não devolvo o olhar para fora
caminho ainda mais para dentro
e me deixo sozinho
para sempre


terça-feira, 8 de maio de 2018

LUZ E ALUMÍNIO



revoada de flores
entre o olhar
e o caule
fragmentos da primavera
escorrem da cabeça da tarde
um trauma nunca resolvido
o sol que se embrenha
onde não é permitido
o corpo da tarde removido
junto com a sombra
envolto pela noite
lembra um alumínio
salpicado de luzes
disfarçadas de estrelas

quinta-feira, 3 de maio de 2018

QUANDO EU ERA JOVEM


quando eu era jovem
cada passo era um salto
as estrelas caminhavam ao meu lado
sem saber que vinha de mim o seu brilho
palavras não me alcançavam
porque antes de mim havia a ideia
quando eu era jovem
parecia um velho
guiado pelo cordão umbilical
o riso usava o meu rosto
como esconderijo
a lágrima usava o meu rosto
como fantasia
e como não sabia
nada usava a alegria

segunda-feira, 23 de abril de 2018

QUASE MÃE


prenhe
quase mãe
a poesia não encontra
um local confortável
fechada parece uma flor
um trem que vai chegar
antes dos trilhos
aberta parece uma mão
afagando o ventre por dentro
confundindo o feto
que pensa estar navegando
no teto
no entanto está raso