quarta-feira, 24 de junho de 2020

FRATURA EXPOSTA


osso de preto é branco
osso de branco é branco
como é vermelho o sangue de ambos
o cego preto não enxerga o branco
o cego branco não enxerga o preto
é necessário alguém dizer ao cego branco
que o rosto que ele toca é de um preto
como ao cego preto também é dito
mas para ambos isso não tem o menor significado
o tato não reconhece a cor
o tato é de fato o ato
do sentimento do formato do outro
o outro é o que o tato sente
o tato é o que é sentido
onde não há sentido sentir a cor
como para ambos não importa
se a cor do osso é a mesma
se a cor do sangue é a mesma
o tato não alcança a cor do osso
nem a cor do sangue sob o pescoço
nem a cor que cobre a pele
nem a cor do amor nem a cor do ódio
para um cego
todas as cores estão longe
como deveria ser para todos que enxergam
olhar para o outro
com o olhar do tato
sem precisar expor o sangue
sem precisar expor o osso

segunda-feira, 8 de junho de 2020

ENQUANTO MEUS AMIGOS ME CARREGAM


preciso distribuir o peso do meu corpo
entre os meus amigos
esquecer a forma das labaredas
tornar possível meus ossos
meus nervos meus cabelos
nas suas mãos em concha
deixar parecer ser água
toda essa angústia
e que ela fuja
entre os seus dedos
que eles não tenham medo
ao descobrir o ralo entupido

MAMÍFEROS RECOLHIDOS


mamilo e boca
parecia fácil
porém entre os dois o escuro
e os desenhos imaginários
o que parecia saliva era lágrima
o que parecia mel era sangue
poucas sementes suportam a luz
algumas permanecem ocultas
e exploram outros compartimentos
outras entendem a claridade
e alongam pulmões de galhos
permitem à boca o toque
com o mamilo envenenado

COLAR DE PERDAS


o sonho a perda o óbvio
e tudo o mais que não volta
formaram esse círculo
cuja parte de dentro
não me conhece
e os outros
quando enxergam
esse círculo em meu pescoço
entendem apenas um colar

ENQUANTO A ASA NÃO VEM


embora não pareça
os braços pesam
é preciso ter asas fortes
a partir da omoplata
tenho me esforçado muito
por enquanto tenho os braços
e muito espaço