quinta-feira, 12 de setembro de 2019

COM MERO TEMPO


gostaria de comer o tempo
mas conheço o seu veneno
ele não me conhece
e me come sem engolir
sua saliva e seus dentes me transformam
nessa massa disforme que sobrevive
graças à fome de comer o tempo

terça-feira, 10 de setembro de 2019

FASES


fizemos as pazes
costurei os sumos aos bagos
o fumo aos tragos
e tudo ficou paralisado
o ar necessário
não alcançou a altura do nariz
repousou na raiz da planta
que não precisa de água
a flor de sopro exala o ar
da paz desnecessária
fizemos as pazes
e não aprendi
a utilizar a agulha
utilizo o não na costura


sábado, 7 de setembro de 2019

A TARDE ME CUMPRIMENTA


cruzo pela tarde
ela me cumprimenta
sem mover um músculo
mas sua elegância
derruba a noite no meu colo
devo estar romântico
para sentir tudo tão escuro
ou simplesmente descobri a cegueira


SOBRE A LUCIDEZ DAS FLORES


uma tentativa de surtar
sem ter cabeça para isso
assim agem as flores
quando sentem o sangue
circular nas veias
confundem sangue com cores
odores com amores
remam e pensam que rimam
de costas para o destino
seus esforços seus suores
apenas fixam suas raízes
numa lucidez que para os outros
torna tudo imóvel

terça-feira, 3 de setembro de 2019

NÃO SEI VOAR


porque não sei voar
não quer dizer
que eu não tenha asas
posso usá-las num sonho
num poema
ou debaixo d’água
posso usá-las longe dos olhos
posso devorá-las
dependendo da fome
posso me voar por dentro
desaparecer por alguns momentos
como se estivesse morto
como se para voar
precisasse de um corpo