quinta-feira, 30 de abril de 2020

O MELHOR ÂNGULO PARA MORRER


há um automóvel dentro da piscina
dentro dele um fotógrafo
acha que ali é o melhor ângulo para morrer
discordo e prossigo a conversa
com os peixes desenhados no ladrilho
eles concordam comigo
desconhecem a textura da piscina
o modo como o automóvel flutua
mas já participaram de diversas fotos
e sabem que para morrer
os ângulos não importam

segunda-feira, 20 de abril de 2020

QUANDO LIBERAREM O ABRAÇO


quando liberarem o abraço
o botão da minha camisa vai gastar
de tanto que eu vou abraçar
quando liberarem o abraço
espero encontrar todo mundo em seu lugar
quando liberarem o abraço
vou abraçar até quem eu não queria abraçar
e quem achar estranho aí é que o abraço não vai ter tamanho
e quem eu quero abraçar sempre se prepare
porque o abraço vai virar semente
para que meu abraço se transforme em outro abraço
que se torne outro abraço
até que do abraço se torne todo o espaço

domingo, 12 de abril de 2020

CALAR FRIO


sinto calor
e ao mesmo tempo
sinto frio
nunca mais vi meus amigos
nem meus inimigos
nunca mais senti o cheiro dos esgotos
nem do jasmim do muro vizinho
o vento não traz os cheiros
o vento perdeu meu endereço
perdeu tempo inflando a esperança
que escondia na alma um furo

DIZER QUE TE AMO


dizer que te amo
não me livra da morte
ao contrário
desisto de montar essa perda
não vou carregar
mesmo que eu tivesse ombros
sabe onde eles ficaram
amontoados entre os tombos
afastado da morte
quando pronuncio eu te amo
a palavra sem noção de perda
sem noção de enfado
a palavra musculosa
percorre a vida
como se o tempo a protegesse

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O MAR SONHANDO COMIGO



sonho com o mar
na esperança de que ele me engula
quem sabe o sal
sabe do cheiro
sabe do azul
que o céu insiste em mover
para baixo
da minha pálpebra
escorrem essas palavras
não sei onde estavam
enquanto o mar
comigo sonhava

domingo, 5 de abril de 2020

COSTURANDO SEMENTES


costuro sementes
para isso utilizo os dentes
os que se foram
porque os poucos que restam
nem servem para sorrir
costuro sementes
na esperança de existir
não serei árvore nem serei flor
semente costurada não floresce
pertence ao tecido
parte do corpo esquecida
entre o sorriso e a mordida

CORAÇÃO EM QUARENTENA


em plena quarentena
meu coração resolve partir
falei dos perigos da multidão
ele falou em divisão
falei de despedidas
ele falou das coisas repartidas
falei dos perigos lá fora
ele mencionou os perigos de outrora
meu coração 
diz a que veio
não vai partir
por ali 
para sempre
tão somente
vai me partir 
ao meio