segunda-feira, 18 de março de 2019

POEMA EM TESTE


testei um poema na cabeça
não deu certo
a cabeça não se abriu
mesmo com todo sonho derramado
testei o poema na água
por um momento a superfície estupefata
esbofeteou a própria face até formar estranhos
caminharam sobre as águas mas tinham asas
testei o poema no ar
não consegui respirar
testei na pele sob o sol
e essa camada formada que ora vos fala
parece palavra mas não passa da marca
do silêncio que ficou
testei o poema
utilizando palavras
essas escritas e outras pensadas
ele ficou longe sem alma
um nervo formado de alvoroço
testar poemas
é vestir um corpo sem osso




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

APRENDER COM FLORES


poetas aprendem com flores
a despetalar-se sem perder as cores
que é necessário o estrume
para alcançar o perfume
poetas aprendem com flores
a permanecer com a mesma cor
nas mãos do morto
nas mãos do amor
permanecer com o mesmo odor
permanecer calado
porque é efêmero seu significado
aprende com a flor
uma verdade enxuta
nem toda flor depois é fruta
poetas aprendem com flores
que com flores não há aprendizado
enquanto não existem são mudas
poetas existem não são cultivados                                             



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

SABES QUE ME ODEIAS


sabes que me odeias
? então por que me sonhas
? por que podas as plantas dos teus pés na minha cara
? por que me encarnas
? por que demarcas linhas em minhas costas
? por que meu sangue cobre a lente dos teus olhos
? por que teu tempo se acumula em minha porta
? por que me salvas ao me lembrar de que existo
? por que escorres em minhas calhas
sabes que me odeias
? então por que me cabes num poema e ainda sobres
? por que me encaixas no teu peito e em tuas sobras
? por que me matas e não me enterras na memória
? por que meu corpo pendurado em teu pescoço é o teu pelo
? por que me expeles dos teus poros e me evapora
? por que te encantas enquanto chovo sem molhar tua cabeça
talvez nem saibas que me odeias
cultivas alguma dor que nunca exala
e finges obter o cheiro com meu medo
e não suportas a ideia de um ódio ultrapassado

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

BAGAGEM


minha lágrima
abaixo do nível do mar
minha mágoa
não sabe o que é navegar
ancorada num canto da fala
confunde o mar com a chuva
desenha no olho miragens
e deságua numa viagem
sem bagagem


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

NOVENTA DIAS


               para Iri

meu mergulho já durou
noventa dias
ainda não alcancei o fundo
porque talvez não seja desse mundo
aprendi a perder o ar
e permanecer falando
aprendi a calar
com as palavras me olhando
noventa dias
não são noventa flores
nem noventa olhares
nem noventa amores
não são pra qualquer um
são para nós dois
e nem sabemos o que vem depois


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O COLECIONADOR DE PEDRAS


quando eu colecionava pedras
procurava as mais caladas
pedras tagarelas formam furos
denso espaço de musgo
pedras caladas sabem cada palavra
e a sua respectiva inutilidade

CROCODILOS NÃO DORMEM



crocodilos não dormem
escrever um tratado sobre os sonhos dos crocodilos
seria uma estupidez
mesmo assim vou tentar
porque é para isso que a poesia existe
mesmo que eu falasse
sobre os sonhos dos homens
seria uma estupidez
porque eu dependeria do que eles narrariam
prefiro os sonhos dos crocodilos
porque só vão existir em meu tratado

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

COROLÁRIO


sempre escrevo o mesmo poema
utilizando novas palavras
eu sei o que isso quer dizer
mas repito até não saber


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

MINHA PALAVRA



minha palavra curva
não preenche o que pretende
reta não se atura
linha que sutura o silêncio
inábil sangue que se diz um sábio
e foge como um incêndio
minha palavra larga
não se apega à altura
queda anunciada sem amparo
corpo que derrama pelo furo
minha palavra calma
não sai da boca do futuro
perece junto com o que fala
parece a argamassa do escuro