sexta-feira, 20 de setembro de 2019

SUPERFÍCIL



nem toda palavra afunda
na água
só as mais profundas
águas
aprofundam as palavras
não afundam
quando se aprofundam
permanecem na superfície
do que se funda
a água que finda
a palavra

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

COM MERO TEMPO


gostaria de comer o tempo
mas conheço o seu veneno
ele não me conhece
e me come sem engolir
sua saliva e seus dentes me transformam
nessa massa disforme que sobrevive
graças à fome de comer o tempo

terça-feira, 10 de setembro de 2019

FASES


fizemos as pazes
costurei os sumos aos bagos
o fumo aos tragos
e tudo ficou paralisado
o ar necessário
não alcançou a altura do nariz
repousou na raiz da planta
que não precisa de água
a flor de sopro exala o ar
da paz desnecessária
fizemos as pazes
e não aprendi
a utilizar a agulha
utilizo o não na costura


sábado, 7 de setembro de 2019

A TARDE ME CUMPRIMENTA


cruzo pela tarde
ela me cumprimenta
sem mover um músculo
mas sua elegância
derruba a noite no meu colo
devo estar romântico
para sentir tudo tão escuro
ou simplesmente descobri a cegueira


SOBRE A LUCIDEZ DAS FLORES


uma tentativa de surtar
sem ter cabeça para isso
assim agem as flores
quando sentem o sangue
circular nas veias
confundem sangue com cores
odores com amores
remam e pensam que rimam
de costas para o destino
seus esforços seus suores
apenas fixam suas raízes
numa lucidez que para os outros
torna tudo imóvel

terça-feira, 3 de setembro de 2019

NÃO SEI VOAR


porque não sei voar
não quer dizer
que eu não tenha asas
posso usá-las num sonho
num poema
ou debaixo d’água
posso usá-las longe dos olhos
posso devorá-las
dependendo da fome
posso me voar por dentro
desaparecer por alguns momentos
como se estivesse morto
como se para voar
precisasse de um corpo

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

HORA DE ACORDAR

adormecemos antes da hora

por este motivo

participamos deste pesadelo

onde quase tudo se desfaz

só não podemos

acordar tarde demais

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O SILÊNCIO DO MOMENTO


antes soprávamos o rio
e a poesia estava feita
agora nem sei onde estão nossas bocas
e o rio é um til
acentuando um pensamento
sem cabeça


terça-feira, 13 de agosto de 2019

SUPINA


acordo mais firme que forte
amontoo coisas
principalmente
as que preciso descartar
não dou conta de tantas lembranças
e o futuro espera ver minhas costas
no entanto permaneço deitado
sob as coisas que me cobrem
e que se movem
como se fossem meus gestos


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

HEMISFÉRICO


depois vai cada um para o seu lugar
não temos asas
o rio que navegamos não é o mesmo
e o céu não se inclina de maneira fácil
a terra que acompanha também não se precipita
mesmo quando a pele apele
as salivas desaguadas as secreções
misturando segredos
mesmo sem asas
fabricaremos voos inúteis
de falas falhas
vestiremos um futuro já rasgado
e quando o vento invadir a fenda
pensaremos que é apenas um frio
mas sabemos ser uma estação
onde nenhum hemisfério terá passagem


domingo, 4 de agosto de 2019

ORIGINAL



nunca li deus no original
e as traduções que me foram apresentadas
não me tornaram existindo
nem muito menos criado
e não sendo
nem entendendo o sentido
criei outro mundo apagado
onde deus não precisa ser lido


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

TARDE MAIS


sim
conversaremos mais tarde
levarei uma mala de palavras
fora as que estão aqui dentro
e as que vão passar voando
e a gente vai pensar que é passarinho
quando é o avião
carregando a tal mala
para aquele lugar
que ainda não mencionamos


segunda-feira, 29 de julho de 2019

ALMA VELHA


minha alma velha
carrega o meu corpo
em direção ao abandono
minha alma velha
não tem forças
se ampara no mundo
mais velho do que ela
carregar o meu corpo é um engano
há muito foi abandonado
antes que o mundo
houvesse passado
por cima com um pano
e a alma velha
mais morta que cega
vaga pensando que me carrega


segunda-feira, 15 de julho de 2019

PAREDE DO SILÊNCIO


se atravesso a parede do silêncio
sem deixar a sombra
pensam que estou do outro lado
enquanto pisam sobre o que foi deixado
nunca vão entender as linhas do sonho
mesmo apagado sob os olhos
que insistem em permanecer fechados
o que deixo são palavras
porém de pouca utilidade
se ainda fossem entendidas
talvez tivessem uma sobrevida
minhas ações não correspondem
ao meu lugar no mundo
gostaria de interromper
minha maneira de dizer
diante dessa impossibilidade
apenas atravesso a parede do silêncio
fazendo todo esse barulho
espalho os fragmentos dos sonhos
não todos
mas os que possibilitem
reconstituir um despertar menos claro


domingo, 14 de julho de 2019

NOVO SUBMERSO


o novo submerso parte
em duas partes
a parte externa se repete
indefinidamente
a parte interna se reflete
na parte externa
indefinidamente
o novo submerso parte
sem destino e sem esperança
aprende a flutuar
voltando a ser criança
ergue a sombra sobre os ombros
e a espalha no espaço
como uma pipa carregada de lembranças


quinta-feira, 11 de julho de 2019

CINZA


embora alto
o cinza do céu
não sonha
pareço estar perto da água
quando chove
em minha entranha
pareço cinza
embora baixo
escorro de maneira estranha
cavo no céu
caminhos que não cabem
em sua sanha


quarta-feira, 10 de julho de 2019

NA IMPOSSIBILIDADE DE BEIJAR MINHA CABEÇA


não consigo beijar minha cabeça
talvez isso justifique meu humor espalhado
em fatias pelos muros
a cada esquina preciso explicar uma piada
como se fosse um poema
ou explicar um poema
como se fosse uma piada
e a cada explicação a minha cabeça
que nem cheira
necessita que por mim seja cheirada
e eu que nem consigo beijá-la
guardo o meu beijo entre as palavras
e pedes uma explicação para o poema
e eu explico como se fosse uma piada

sábado, 6 de julho de 2019

MAIS SILÊNCIO QUE PALAVRAS


Para G.Vieira

respeito mais o silêncio
do que as palavras
a forma do silêncio me afaga
e me molda ao que desconheço
me acomoda ao que menos pareço
as palavras que não mereço
e que por vezes me abraçam
nunca ultrapassam
isso que escrevo

sexta-feira, 5 de julho de 2019

RECOLHENDO PEDRAS


comecei a recolher as pedras
como se fosse morrer
primeiro as maiores depois as menores
como se existisse
a possibilidade da morte
enxergar as pedras menores
torna as maiores que a morte
como se consistisse
considerar o tamanho
da morte se ela existisse
recolheria as pedras
como pudesse ocorrer
os tamanhos diversos da morte


quarta-feira, 19 de junho de 2019

VOCAÇÃO PARA O INFINITO


nunca tive
vocação para
o infinito
todo meu 
gesto
é
curto
maleável
fácil
mover-me
não me
tira daqui
permaneço
por toda
parte
limitado
ao acaso
infinito



terça-feira, 11 de junho de 2019

INCONTINÊNCIA URINÁRIA


a felicidade da incontinência urinária
é saber que os rins estão funcionando
as palavras derramadas no papel
por mais inconvenientes que sejam
mostram que a cabeça está funcionando
porém nem sempre funciona bem
esfíncter deteriorado
torna a bexiga um poço sem fundo
a fralda geriátrica é prática mas não é ecológica
a cabeça está funcionando
e despeja essas palavras aqui
devem causar algum mal estar
mas não estou nem aí pra isso
estou imóvel sentindo o calor da urina
entre a minha virilha e a superfície porosa da fralda
o mesmo que algumas palavras provocam
quando se colocam entre o olhar estranho
e a superfície inútil do neurônio
meus rins estão funcionando
é o que diz a minha cabeça
sugo o soro pela boca da veia
balbucio palavras entre os espaços das teias


quinta-feira, 23 de maio de 2019

SURTO


aproveito o surto e fico mudo
deposito a poesia
no fundo do meu corpo
imóvel
não permito que ela cresça

sábado, 11 de maio de 2019

AQUÁRIOS


observo um cardume
de tubarões-martelo
vindo em direção
 à janela do meu quarto
devo estar sonhando
diz um deles
vejo um homem
dentro de um aquário



terça-feira, 7 de maio de 2019

CHORAR DO ABISMO


no meu abismo é permitido chorar
a lágrima toma a forma do lugar
vaga ideia do vazio líquido
criando olhos antes do início
erguendo as paredes do precipício
no meu abismo é permitido
chorar não muda as coisas do lugar
o mundo parece cobrir tudo
até o olho mudo
abre além do que é sentido
e enxerga o abismo que nunca vai chegar

terça-feira, 23 de abril de 2019

TÉDIO


encostado ao céu
nem percebo
que sou parte do seu sonho

MILAGRE ESTRANHO


a vida é um milagre estranho
deito sob a terra e não consigo me calar
falo uma árvore e espalho os galhos de ar
as unhas pintadas de frutos pequenos
secretam venenos
em fomes impossíveis de alcançar

sábado, 20 de abril de 2019

TÍMPANO


mordi a minha orelha sem querer
pensei que era a asa de um pássaro
mas era o pedaço de um som
que eu não queria ouvir
agora esse pedaço de orelha em minha boca
uma canção que eu não quero cantar
enfeita a minha memória
como a casa de um pássaro cheia d’água
pensa que é um mar


segunda-feira, 25 de março de 2019

DO TAMANHO DO MEU NOME


o mundo é quase o meu nome completo
faltam apenas as vogais
as consoantes
quando são pronunciadas
são os meus ais