domingo, 11 de abril de 2021

VAPOR

 a água esquenta depressa

e eu não tenho chá

tomo o que o calor oferece

tomo inconsciência

tomo um rumo

não ateio o claro fogo em vão

apenas me deixo derramar feito água

mas só percebo quando o vapor

assume a minha forma

quinta-feira, 1 de abril de 2021

AXIOMA

a acústica do tempo

não permite que sejamos óbvios

palavras não erguem templos

pelo contrário desfaz rosários

nem precisam ser ditas

para alcançar o teto

bastam seus significados

e o modo como são dispostas

formam um vaso sobre a fala

exalam pessoas e outras coisas plásticas

escorrem entre os aparelhos

não nos permitem acabá-las

e mesmo incompletas não nos amparam

 

 

 

 

QUARENTEMA

 o ócio comeu meus ossos

enquanto posso crio orifícios

e devolvo as tripas para o meu corpo

é o que me resta

esse fio entre o delgado e o grosso

entre o que esqueço e o que decoro

esgarço o nervo e a pele

enquanto a esperança o poro expele

enquanto a palavra é um mero risco

engrosso o couro das sementes

e me deixo regar pelos gritos