segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

ESTOL


eu tenho uma dor no teu peito
como se o meu coração tivesse asas
mas não soubesse voar
cruzasse o céu da tua casa
usando um motor para planar
e se pousasse
não caberia o lugar


domingo, 16 de fevereiro de 2020

BUCETA DE SEREIA


a buceta da sereia é clara
como a água e a areia
a água da torneira a água do mar
e a areia da praia
a buceta da sereia
não se espalha
escamada escondida acalmada
é mais um canto que uma carne
é mais encanto que uma pele
que se revele depilada ou cabeluda
que se revele desnuda
é um destino para o desencanto
para qualquer glande um espanto
para qualquer vulva ficar muda
a buceta da sereia
parece que nem existe
mas seu encanto permite
sua presença num poema

domingo, 26 de janeiro de 2020

HUMANO É ÁGUA


sobram apenas os ossos
e alguns botões
se estiverem juntos
talvez dentes de ouro e anéis
se estiverem juntos
talvez sobrem parentes
se estiverem juntos
sobrem lembranças
se estiverem juntas
o resto é água adubando a terra
o ser humano é água
gelo é duro
mas é água

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

PENSA QUE ESCREVE POEMAS



o cara escreve poemas
pensando em fazer baldeação com o infinito
no entanto sua fala mal chega a ser um grito
apertada entre as páginas esquecida
e quando abertas assustada nunca lida
o cara escreve poemas
pensando ligar o claro ao opaco
porém sua palavra nem se torna um anteparo
esmagada sob a memória
escorre sem significado

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

SUBÚRBIO 6



não há mais sombras no subúrbio
o cimento comeu as árvores
crianças usam atiradeiras eletrônicas
matam inimigos virtuais
e as lagartixas proliferam em paz

SOMBRA


o sol mede forças com a sombra
a sombra não se esforça para ter cor
abraça escuro sem manchar a pele
sem usar os braços
seu coração vazio de calor pulsa ao longe
o sol escorrega entre as pregas do esforço
até perder a luz
a noite toda é sombra

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

SUBÚRBIO 5


caminho pela infância
sem lembrar
cabelos cortes cicatrizes
costuram o sol por dentro
eu sou a sombra
que se oculta em cada raio
e sinto a dor da superfície
antes de ser tocada

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

OCEAMO


Para Iri

oceanos cabem em órbitas
mesmo as que não alagam
mesmo as que apenas alargam
outros oceanos que se preparam
para ser de olhos que se alagam
para ser de olhos

O QUE FAÇO COM O SOL



o que faço com o sol não é da minha conta
se uso como conta de um colar
se colo na ponta pra contar
se canto no conto pra apontar
nada tem importância
o que faço com o sol não é da tua conta
se conto e te pões a pensar
se penso em te contar
se o sol não deveria estar nesse lugar
pouco importa
para fazer com o sol não há porta
é todo parede sem sombra
é todo de sede
e não mede
o que faço com o sol não tem a menor importância