segunda-feira, 29 de maio de 2023

DEPOIS QUE MORREM

 sei para onde vão as mães

depois que morrem

a saudade forma um túnel

e a luz que vem

em sentido contrário

as transformam em cinzas e ossos

 

sei para onde vão os automóveis

depois que morrem

o desejo forma uma esteira

nivelando tudo ao solo

e os transformam em borracha e óleo

 

não sei para onde vão os poemas

depois que morrem

aqui por exemplo

deveria ser outra palavra

e aqui outra

e ali outra

ESPERAR

 cansei de esperar pessoas

espero coisas

espero a noite carregada de anexos

estrelas nuvens escondidas

lua sobreposta à cicatriz do céu

a escuridão ancorada na memória

depois virão outras coisas

talvez carregadas de pessoas inesperadas

talvez livres me abracem

como seu eu fosse

uma coisa qualquer

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

BEIRA DO LUGAR

vou aonde me cabe

onde me sobra

aonde me cobra

estar por fora


vou aonde me acende

onde me entende

onde me aguarda

estar ausente


vou aonde me dobra

onde me sopra

aonde me prega

estar para sempre

SEDE

 um poema escrito na água cumpre sua função  de sede