quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O POEMA NÃO É UMA CASA

 um poema não é uma casa

não se exige um terreno

onde possa fincar alicerces

erguer paredes salpicadas de cimento

nem concreto que sustente nada concreto

 

um poema não é uma casa

não se abrem portas janelas nem se penduram quadros

não se retira o pó nem se retiram moradores

não abrem corredores

não se marca o piso com pegadas

 

um poema não é uma casa

não se sustenta num endereço

não se enquadra num lote que se esgote

não recebe visitas importantes ou inoportunas

não se acrescenta a nenhuma fortuna

não se inclina com a ventania

não se verga nas intempéries

nem se molha

mesmo quando fica do lado de fora

 

um poema não é uma casa

mas há quem entre e se acomode

pensando que more  ou se esconde

atrás de palavras

que nem sabem os nomes

domingo, 23 de novembro de 2025

QUANDO O AMOR PENETRA

 ninguém presta muita atenção

quando o amor penetra

parece suave

porém quando arde

exala gumes

 

é do seu hálito pontiagudo

que as palavras se abrem

mostram seus músculos

repletos de pétalas obscenas

e outras carcaças eternas

 

depois que ele penetra

e o seu corpo é o nosso

outro corpo por dentro

por onde porejamos

de forma diferente

 

por onde sonhamos

com a sua cabeça

e ele nos narra os nossos sonhos

antes que a dor se estabeleça

antes que o amor aconteça

 

depois que ele nos prega

em sua pele qual a treva

tatuada de esferas

e nos entrega aos poucos

aos loucos sem esperas


depois que o amor penetra

não é mais nosso

nem é parte do outro

nem a parte do osso

nem o ouro nem o ouço

 

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

AS COISAS DO VAZIO

 parece leve

parece breve

tudo é tenso

                            e denso

 

santos embaralhados

atravessados pela luz

e pelas coisas

                                 inexistentes

                                 insistentes

 

cruzam os céus de bambus

guiados por poema

ACIDEZ

 nos finais de semana

minha lágrima fica mais ácida

o que tem a ver a acidez

com o fim de semana

como o que tem a ver

o fim com o fundo

o sim com o mundo

o chão com a aorta

o pão com a porta

 

como se tivesse o verde

a ver com o dia

se algo tivesse a ver com algo

não seria poesia

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CAPINANDO

debaixo do sol

a pele o suor e a fome

depois vem o dinheiro

não dá pra comprar muita coisa

mas dá pra comprar alguma coisa

 

tivesse mais tempo

daria pra comprar mais sombra

mais vento

e alguma coisa pra comer

que não causasse espanto

 

não tem tempo

para a palavra

olha o cartaz com a moça sorrindo

rodeada de letras coloridas

sabe as cores

não sabe o sabor de cada uma

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

SOPRO

 

poetas fingem destinos

criando o que ninguém vê

 

cobrem de palavras

o sopro que apaga o silêncio

FLOR DE CAPIM

  

independente da sobra

a flor de capim

nasce entre os passos

tal qual um fruto sem memória

amarela

exala a sua raiz

em direção ao fim


O POEMA NÃO É UMA CASA

  um poema não é uma casa não se exige um terreno onde possa fincar alicerces erguer paredes salpicadas de cimento nem concreto que ...