sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TODO SENTIMENTO

algumas coisas não se acertam nunca
nunca serei a pele de alguém
nunca serei minha pele
palavras suturam discursos
mas as cicatrizes não se apagam
o silêncio rompe os cortes fechados
melhor deixar assim
tudo aberto
todo mundo é igual por dentro
alguns não entendem os sentimentos
tudo é dor fique certo

PÁGINA SONORA

pontes e abismos
esses pequenos objetos
e suas alavancas
reentrâncias
e o modo de encaixar as palavras
se eu soubesse
não estaria aqui agora
tornando essa página sonora

MANHÃ QUASE CALMA

mostrou-se tranqüilo
apesar da altura
os cabelos em desalinho
a gravata dando voltas no pescoço
o sapato direito quase caindo
o asfalto ainda molhado da chuva noturna
poucos automóveis ainda
poucos transeuntes
e apenas o seu corpo de encontro ao solo
o filete de sangue
interrompeu o caminho das formigas
e o corpo interrompeu a manhã
que parecia calma
até aquele momento

SONHANDO COM BOCAS

palavras pontiagudas
intragáveis
invadiram a minha boca
enquanto eu bocejava
eu queria um sono
agora tenho sonhos
sonho com uma latrina
onde eu possa
cuspir essas palavras
sonho com outra boca
parecida com a minha
e diferente nas palavras

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ESPETÁCULO

aos domingos
artistas cansam o público
a sensibilidade sempre corrói
a parte branca do sonho
os artistas descansam
onde as palavras dormem

terça-feira, 1 de novembro de 2011

FINADOS

deixaram apenas o meu rosto do lado de fora
as flores cobrindo o restante do corpo
nem percebem o meu hálito
nos sopros que tenho guardado
para cada um dos talos
meus movimentos por dentro
despertam outros sentimentos
não sei se durmo
não sei se falo
acho melhor adormecer
até apodrecer

PLANANDO

quando a lucidez foi embora
eu estava no meio da rua
empinando pipa
subi pela linha até alcançá-la
ela fingiu não sentir
o peso do meu medo
permaneceu misturando
suas cores ao azul do céu
esquecemos da noite
do mundo pendurando lá fora
fiz um chapéu do escuro
nunca mais fomos embora

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...