o amor é uma figura de linguagem
costumava repetir isso
quando as declarações eram solicitadas
fazia isso introduzindo gestos
em lugares desconhecidos
por qualquer declaração
o amor são gestos
queria dizer
porém usava como figura
o amor é uma figura de linguagem
costumava repetir isso
quando as declarações eram solicitadas
fazia isso introduzindo gestos
em lugares desconhecidos
por qualquer declaração
o amor são gestos
queria dizer
porém usava como figura
não havia como
ser mais claro
o modo como o sol
ultrapassava o dia
sem grampear
o suor nas costas
apenas gotejava
antes de pensar
como se um rio
pudesse escrever num poema
sua coreografia molhada
e recortasse com isso
a sombra escondida nas palavras
quem já foi soldado sabe
como se abre um corpo
como sabe um pescador
como se abre um peixe
entre as guelras
alguns segundos de esperança
instalada entre as águas
como se instala entre as orelhas
entre uma paz e outra
a lua ao fundo
antes da lua a árvore
com seu vestido verde
e sapatos escuros
entre os cabelos da árvore
a lua ao fundo
ou a lua é um pensamento da
árvore
que daqui enxergo
a poesia põe a cabeça na janela
onde não há janela
de fora para dentro
desorganiza a paisagem
de dentro para fora
acumula demora
a poesia põe a janela na cabeça
nem toda palavra começa
todo poeta nasce morto
isso explica sua briga
inútil com a vida
ataca palavras
e delas se defende
se transforma em estátua
quando a bomba se acende
repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...