segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

COMBUSTÍVEL DA DESAVENÇA



Lembrei de Strindberg, ele diz, num dos seus livros, que o Inferno é aqui onde nós estamos, e a pena eterna, segundo ele, consiste em alcançar a felicidade, no entanto, a convivência humana impossibilita que a felicidade não provoque a infelicidade do outro e vice-versa. Lembrei de Strindberg porque quando falamos algo que, para nós, parece um sintoma de felicidade e que queremos mostrar ao outro, por gestos e, principalmente, palavras, esses gestos e essas palavras são entendidos de maneira equivocada, porque mesmo que eu esteja no mesmo terreno do idioma do meu ouvinte, algumas palavras são mal entendidas, mal interpretadas, e a essas palavras que o ouvinte absorve, junta-se os sentimentos que ele carrega dentro de si, juntamente com o sangue que circula no seu corpo, e a essa mistura eu chamaria de combustível da desavença. O outro, ouvinte que não entendeu minha felicidade, vai demonstrar claramente o quanto ficou magoado e, por dentro, consumido pelo combustível da desavença, vai provocar conflitos e, pior, um silêncio alicerçado no desprezo. E por mais que se tente, posteriormente, consertar ou explicar o que as palavras e os gestos queriam dizer, por mais que se tente, o arranhão na relação não vai ser apagado. Aquela cicatriz vai ficar separando, para sempre, uma relação que parecia clara, sem cortes, sem costuras, sem remendos. Portanto, para sair desse inferno strindberguiano, só nos resta conviver o minimamente possível com o outro. Procurar não mais a felicidade, procurar se encontrar, da melhor maneira possível, consigo mesmo, talvez assim, consigamos não interferir na felicidade de outrem.

2 comentários:

G. Vieira disse...

O céu de um é o inferno de dois
Ou versa vice?

Sérgio Lima Silva disse...

Se você se importar que a sua felicidade provoca a infelicidade do outro, isso o torna um infeliz. Por outro lado, se você não se importa que a sua felicidade provoca a infelicidade do outro, você vai se tornar um indiferente, consequentemente, sua felicidade está comprometida. Ou seja, não há saída.