quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O SILÊNCIO AO REDOR

então resolvi escrever algo simples
para confundir um pouco
quem espera complexidade
em algo que não deveria
ter nenhuma complexidade
interrompo o silêncio da página
mas deixo o silêncio ao redor
deixo no olhar de quem tiver coragem de olhar para cá
alguma esperança de que ao final desse texto
deste texto de este texto de esse texto de es
deste texto
haja algum pretexto
para que algo realmente simples seja escrito
e com isso não consiga promover
a tão propagada necessidade de complexidade
em algo que não deveria ter


REGRAS

regra não tem preço
parece comida
pendurada num adereço
no começo erra
depois não quis menos
agora retina inacabada
engole o tom
da cala magra
regra não tem começo
empalidece instruída
ventilada num apreço
ao final era
e sempre queria mais
afora cortina abalada
esfola o som
da mala traga


terça-feira, 14 de outubro de 2014

ESCAVAÇÕES


primeiro apodrece o umbigo
por último a alma
e entre um e outro
tentamos preservar
tudo que será morto
alinhavamos parcerias com o tempo
pensando que o silêncio
é a concordância do tempo
prolongamos uma existência
desnecessária
cavando nossa presença no mundo
cavamos com as mãos
sem saber que somos os grãos
do mundo que cava mais fundo

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

AJARDINADO

pendurado no mundo
não fico
mesmo se eu soubesse
onde o mundo
fica pendurado

estiro meu corpo
por todo lado
meu poro escancarado
meu modo 
meu medo 
meus males
criando raízes

meus pelos abertos
confundidos com flores
de vez em quando arrancados
enfeitam vasos lapelas
festas tristezas

meu corpo arrancado
do lado errado
me torna mais forte
que o lado certo



FUNDO DO POÇO

no fundo do poço
recolho meus ossos
sempre falta um pedaço


NA CABEÇA DA ESTÁTUA

um dia alguém vai dizer
que isso não foi suficiente
para mudar o mundo
eu tento fazer a minha parte
não deixando páginas em branco
procuro provocar
olhares mais generosos
do que as palavras merecem
por melhor que seja a palavra
o silêncio sempre provocará mais estragos
o que se passa na cabeça da estátua
ou na cabeça do homem
que esculpe a estátua
nenhum discurso vai chegar perto

ESCORREGANDO

não preciso tocar na vida
para provocar ondulações
basta respirar e a vida se abre
e me solta dentro dela
como bem entende
escorro parecendo água
e o meu corpo sem pele
vai deixando marcas
por onde passa


PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...