Lembrei de Strindberg, ele diz,
num dos seus livros, que o Inferno é aqui onde nós estamos, e a pena eterna,
segundo ele, consiste em alcançar a felicidade, no entanto, a convivência
humana impossibilita que a felicidade não provoque a infelicidade do outro e
vice-versa. Lembrei de Strindberg porque quando falamos algo que, para nós, parece um sintoma de felicidade e que queremos mostrar ao outro, por gestos e,
principalmente, palavras, esses gestos e essas palavras são entendidos de
maneira equivocada, porque mesmo que eu esteja no mesmo terreno do idioma do
meu ouvinte, algumas palavras são mal entendidas, mal interpretadas, e a essas
palavras que o ouvinte absorve, junta-se os sentimentos que ele carrega dentro
de si, juntamente com o sangue que circula no seu corpo, e a essa mistura eu
chamaria de combustível da desavença. O outro, ouvinte que não entendeu minha
felicidade, vai demonstrar claramente o quanto ficou magoado e, por dentro, consumido
pelo combustível da desavença, vai provocar conflitos e, pior, um silêncio
alicerçado no desprezo. E por mais que se tente, posteriormente, consertar ou
explicar o que as palavras e os gestos queriam dizer, por mais que se tente, o
arranhão na relação não vai ser apagado. Aquela cicatriz vai ficar separando,
para sempre, uma relação que parecia clara, sem cortes, sem costuras, sem
remendos. Portanto, para sair desse inferno strindberguiano, só nos resta
conviver o minimamente possível com o outro. Procurar não mais a felicidade,
procurar se encontrar, da melhor maneira possível, consigo mesmo, talvez assim,
consigamos não interferir na felicidade de outrem.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
O LUGAR DO AMOR
o amor é fácil
o problema é guardá-lo
se for num armário
vai precisar de porta
e a porta uma chave
e a chave um bolso para guardá-la
outro problema é encontrar o chaveiro
que consiga fazer a tal chave
possível de encaixe na fechadura
se for guardar num espelho
vai ser preciso coragem
para se encarar
ou encontrar uma boa pedra
para quebrar
se for guardar no peito
vai ter que combinar
com o coração
para não haver rejeição
difícil guardar o amor
se deixá-lo ao relento
quem garante que o vento
vai deixá-lo intacto
ou que o sol e a chuva
vão fazer uma curva
para não tocá-lo
o amor é fácil
então pra que guardar
melhor deixá-lo
fora de lugar
fora de lugar
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
SOBRE A INCAPACIDADE DE ABSORVER PALAVRAS
não consigo absorver palavras
elas me cercam feito migalhas
se são faladas não são ouvidas
se são pensadas não são sentidas
as palavras me carregam além das bocas
nas quais trafegam
palavras nem precisam ser o que são
quando escritas passam de mão em mão
até alcançar o vão estupendo do silêncio
sábado, 9 de dezembro de 2017
SEM LEMBRANÇAS
não quero lembranças
memórias machucam
a paisagem que vi já se foi
essa que vejo não me vê
e por não me pertencer
abismo presenças na que vier
QUANDO PENSO EM VOAR
quando penso em voar
falta-me o ar
a linha do pulmão
descreve o espaço
entre o desejo e o abraço
parece costurar caminhos
mas desalinha
asas que nunca faço
LADEIRA A BAIXO
quando você pensa que o coração
rolou ladeira a baixo
ele está te esperando
porque é você que está rolando
até o mundo lá embaixo
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
SOBRE SORRISOS E MORTES
cuido do meu sorriso
como quem cuida da própria morte
organizo um evento
do qual não vou participar
evito espelhos
enquanto houver um estranho
tateio minhas rugas
incrustadas na face
como se ao sorrir fosse possível
evitar a morte
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