segunda-feira, 1 de agosto de 2022

LEITURA

 

aprendi a ler

supondo que a palavra casa era do meu tamanho

aprendi a ver o corpo

e ao corpo permitir falar

espaços entre o teto e o piso

espasmos entre o choro e o riso

aprendi a calar antes da fala

aprendi palavras que nunca uso

mas que guardadas

mostram ao medo outro alfabeto

ARDOR

 

a dor nunca acontece com a água

é um deserto que se espalha

entre o olhar e a casa

retiramos o corpo

e o que sobra não cabe num oásis

enxergamos a esperança flutuando

como se existisse

a possibilidade do alcance pela fala

quinta-feira, 21 de julho de 2022

DO EQUILÍBRIO

 

está difícil manter o equilíbrio

toda rua parece um abismo

toda luz inclinada se derrama

sem provocar sombras

está difícil manter o equilíbrio

toda noite parece antecipada

sobre a tarde amanhecida

e as estrelas sob as marquises

procuram se esconder do sol

que entre elas ressona emparedado

está difícil manter o equilíbrio

toda palavra parece apagada

e as ideias cobertas de musgo

ancoram em cabeças degoladas

está difícil manter o equilíbrio

toda rajada de vento

lembra uma mão carregando pensamentos

para o lugar onde ninguém pode alcançar

está difícil manter o equilíbrio

o chão reverte os meus passos

para onde eu deveria ter vindo

antes que o meu corpo tivesse partido

está difícil manter o equilíbrio

não há mais paredes nem caminhos

tatear não precisa de escuros

quando o mundo está sozinho

sexta-feira, 29 de abril de 2022

PELAS RUAS DE SÍTIO NOVO

caminhamos tranquilos

pelas ruas de Sitio Novo

o córrego e eu

entendemos de sigilo

escorremos nossos segredos

pelo meio-fio

até que o sol desfaça

e quando vem a chuva

tudo se espalha

nossos segredos invadem as casas

e todos pensam que é só água

segunda-feira, 7 de março de 2022

ENTREGUE AOS OSSOS

 estou entregue aos ossos

pareço um conjunto organizado

de carnes tendões nervos órgãos

que se desloca entre um destino e outro

e  que eventualmente emite sons parecidos com palavras

gritos gemidos silêncios

porém estou entregue aos ossos

mesmo carregando esse corpo

cicatrizado que produziu cicatrizes

despido que despiu raízes

espancado que espancou

esfolado que esfolou a dor

dilacerado que feriu

corajoso que fugiu antes de contar uma história

e que aos poucos foi amontoando tudo na inútil memória

e agora do lado de fora

espera angustiado igual poeira antes do vendaval

estou entregue aos ossos

porque é tudo que me resta

em algum buraco frio e escuro antes de ser retirado

em algum crematório até ser incinerado

é o que me resta

os ossos

e a minha entrega

da carne puída na altura da vida

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...