quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CARCAÇAS


acordo e enterro
minhas pernas
nas carcaças dos sonhos
os sonhos não me lembram
nem me lembro
se houve algum sonho
quem sabe os sonhos
libertem as minhas pernas
da necessidade de parar

MOTIVO

poupo-me da tristeza
não pensando
por outro lado
se eu pensar na alegria
não vou ficar alegre
pensar na tristeza ou na alegria
me abstenho
eu queria um motivo
para um poema
agora tenho

terça-feira, 4 de setembro de 2012

PREGO

espero a chuva
como um arrepio
espera a pele
espero a morte
como um prego na parede
espera um quadro

OLHOS LIMPOS

meus olhos estão limpos
mas não consigo enxergar a tarde
nem sei quando ela começou
ou se vai terminar
algumas tardes nunca começam
outras nunca terminam
quando havia vida
eu sabia
já superei essa fase
toda a sujeira dos meus olhos
foi embora com alguma tarde
que nunca mais voltou
meus olhos estão limpos
e quando estão fechados
inclinam meu corpo
em direção à noite

REGRESSO

sinto me falta
regresso a mim mesmo
dou em torno de mim
começos
avanço aos pedaços
dou pés aos meus passos
tropeços

RETIRADA


mais uma vez
retiro as palavras
dos seus locais impróprios
e penso organizá-las
num lugar próprio
e entre esses dois pontos
ocupo mais espaço
do que tempo
retiro-me sem tocá-las
e penso que as abandono
num lugar melhor

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ESTIO

pra mim chega
toda vez é isso
essa página em branco
e esse olho por cima
sem fazer sombra
é só luz é só calor
e nada abaixo se queima
nem esquenta
nem permanece frio
pra mim chega
carregar algo
parecido com um corpo
mas que nunca chega
aonde deveria
porque já está morto

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...