quinta-feira, 6 de novembro de 2025

AS COISAS DO VAZIO

 parece leve

parece breve

tudo é tenso

                            e denso

 

santos embaralhados

atravessados pela luz

e pelas coisas

                                 inexistentes

                                 insistentes

 

cruzam os céus de bambus

guiados por poema

ACIDEZ

 nos finais de semana

minha lágrima fica mais ácida

o que tem a ver a acidez

com o fim de semana

como o que tem a ver

o fim com o fundo

o sim com o mundo

o chão com a aorta

o pão com a porta

 

como se tivesse o verde

a ver com o dia

se algo tivesse a ver com algo

não seria poesia

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CAPINANDO

debaixo do sol

a pele o suor e a fome

depois vem o dinheiro

não dá pra comprar muita coisa

mas dá pra comprar alguma coisa

 

tivesse mais tempo

daria pra comprar mais sombra

mais vento

e alguma coisa pra comer

que não causasse espanto

 

não tem tempo

para a palavra

olha o cartaz com a moça sorrindo

rodeada de letras coloridas

sabe as cores

não sabe o sabor de cada uma

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

SOPRO

 

poetas fingem destinos

criando o que ninguém vê

 

cobrem de palavras

o sopro que apaga o silêncio

FLOR DE CAPIM

  

independente da sobra

a flor de capim

nasce entre os passos

tal qual um fruto sem memória

amarela

exala a sua raiz

em direção ao fim


EXERCÍCIO CONSPIRATÓRIO

  

respiro fundo

caminho olhando para o alto

inutilmente

a nuvem tenta esconder

o azul do céu

abismos me temem

ou os que se abriram

me recebem como pedras

risco com fumaça as artérias

que por acaso me abraçam

JAULA

 o que o vizinho faz

com a minha angústia

não me diz respeito

 

abro o peito

na esperança da fuga

do coração enjaulado

 

debalde

ele se esconde

no lugar onde não existo

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...