terça-feira, 29 de novembro de 2016

DINÂMICA DE GRUPO

estendo meus dedos
até formar um corpo
estendo palavras
que não formam nada
quando sumo
pareço de verdade
ninguém pergunta por mim
eu nunca estive aqui


ARTIGOS

se eu não sei amar não falo
se eu não sei morrer não falo
tudo bobagem
não sei de muita coisa
não é só isso
não falo nada
não transito
pelos verbos
prefiro artigos


FINGIR

fingir que está dormindo
é fácil
é só fechar os olhos
e ficar parado
fingir que está sonhando
é mais difícil
requer não está pensando
sonhar acordado é mais fácil
é só ficar de olhos abertos
e a cabeça escancarada
mas fingir que está sonhando dormindo
requer fechar a cabeça para o pensamento
e ao pensar que está sonhando
não está mais sonhando
está pensando que está sonhando
porque quando se sonha
não existe o pensamento
existe o acontecimento
enquanto o pensamento
permanece de olhos fechados

terça-feira, 15 de novembro de 2016

NÃO ME PERGUNTE



plantar sorrisos ou plantas
não diminui a minha dificuldade
de fazer perguntas
meu coração era quente
eu não sabia
sempre respondia
porque sempre fui bom em respostas
meu coração agora está frio
não me pergunte
não sei mais responder

sábado, 5 de novembro de 2016

PRIMEIRA CAIXA DA DOR

1.
a dor empurra o tempo por debaixo da porta
sem bilhete

2.
do que é feita a carne
não forma uma pessoa
os componentes espalhados sobre os nervos
os líquidos que não cabem nos tubos
deixam incompletas as certezas

3.
a pele precipitada tremula sem as horas
era de vento o afago
agora é de tempo

4.
um morto não quer silêncios
quer que alguém saiba o que o morto quer
e que deite ao seu lado e procure o idioma correto
para lhe dizer

5.
reproduzir a dor da melhor maneira possível
requer abismos
mostrar com sangue é fácil
quero ver mostrar com o rosto plácido

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

POEMA OU PESSOA

hoje escrevi um poema estranho
e fiquei olhando pra ele
como se fosse uma pessoa
e ele me devolveu o olhar
como se fosse uma pessoa
que estivesse sendo observada
e se perguntasse e me perguntasse
por que eu estaria olhando para ele
daquela maneira
como se ele fosse uma pessoa
quando na verdade é um poema
que está sendo observado
como se fosse uma pessoa
e se sentisse incomodado
como se fosse uma pessoa
quando na verdade é um poema
que está sendo observado
como se fosse uma pessoa
então resolvo descansar o meu olhar
e observo o poema
como se fosse um poema
e o poema devolve o seu olhar
como se eu fosse uma pessoa


CORRENTES

não adianta esperar a corrente
ou esperar da corrente a fala
ou se ela vai permanecer apagada
não adianta atravessar a corrente
deixar o elo marcar o corpo
ou o poro afogar no furo
não adianta sentir a corrente
do corpo dormente arrancar a penugem
o ponto final da corrente é a ferrugem


PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...