repara
a perda é reparável
repara a perda
repara
a perda é irreparável
nunca para
a perda
nunca para
repara
nunca se repara
a perda
nunca para
repara
a perda é reparável
repara a perda
repara
a perda é irreparável
nunca para
a perda
nunca para
repara
nunca se repara
a perda
nunca para
tudo que vai
nos seus cabelos
quando você sorrir
sai daqui
desse poema
ou do que sinto
quando minto
ao não dizer
tudo que vai nos
seus cabelos
preenche o vento
desse momento
em que me meto
a escrever
o que não sei dizer
tudo que vai
nos seus cabelos
sai de mim
quando você sorrir
quando aprendo
a sentir
o que não sei dizer
a ferrugem surge no meio da página
igual no meio das pessoas
abrir uma pessoa molha tudo
abrir um livro dá em água
num livro a ferrugem
come uma vogal uma sílaba
retira o sentido
a ferrugem na pessoa
impede a leitura
a pele recoberta lembra uma estátua
que esqueceu de parar
um poema não é uma casa
não se exige um terreno
onde possa fincar alicerces
erguer paredes salpicadas de cimento
nem concreto que sustente nada concreto
um poema não é uma casa
não se abrem portas janelas nem se penduram quadros
não se retira o pó nem se retiram moradores
não abrem corredores
não se marca o piso com pegadas
um poema não é uma casa
não se sustenta num endereço
não se enquadra num lote que se esgote
não recebe visitas importantes ou inoportunas
não se acrescenta a nenhuma fortuna
não se inclina com a ventania
não se verga nas intempéries
nem se molha
mesmo quando fica do lado de fora
um poema não é uma casa
mas há quem entre e se acomode
pensando que more ou
se esconde
atrás de palavras
que nem sabem os nomes
ninguém presta muita atenção
quando o amor penetra
parece suave
porém quando arde
exala gumes
é do seu hálito pontiagudo
que as palavras se abrem
mostram seus músculos
repletos de pétalas obscenas
e outras carcaças eternas
depois que ele penetra
e o seu corpo é o nosso
outro corpo por dentro
por onde porejamos
de forma diferente
por onde sonhamos
com a sua cabeça
e ele nos narra os nossos sonhos
antes que a dor se estabeleça
antes que o amor aconteça
depois que ele nos prega
em sua pele qual a treva
tatuada de esferas
e nos entrega aos poucos
aos loucos sem esperas
depois que o amor penetra
não é mais nosso
nem é parte do outro
nem a parte do osso
nem o ouro nem o ouço
parece leve
parece breve
tudo é tenso
e denso
santos embaralhados
atravessados pela luz
e pelas coisas
inexistentes
insistentes
cruzam os céus de bambus
guiados por poema
nos finais de semana
minha lágrima fica mais ácida
o que tem a ver a acidez
com o fim de semana
como o que tem a ver
o fim com o fundo
o sim com o mundo
o chão com a aorta
o pão com a porta
como se tivesse o verde
a ver com o dia
se algo tivesse a ver com algo
não seria poesia
debaixo do sol
a pele o suor e a fome
depois vem o dinheiro
não dá pra comprar muita coisa
mas dá pra comprar alguma coisa
tivesse mais tempo
daria pra comprar mais sombra
mais vento
e alguma coisa pra comer
que não causasse espanto
não tem tempo
para a palavra
olha o cartaz com a moça sorrindo
rodeada de letras coloridas
sabe as cores
não sabe o sabor de cada uma
poetas
fingem destinos
criando o
que ninguém vê
cobrem de
palavras
o sopro que
apaga o silêncio
independente
da sobra
a flor de
capim
nasce entre
os passos
tal qual um
fruto sem memória
amarela
exala a sua
raiz
em direção
ao fim
respiro
fundo
caminho
olhando para o alto
inutilmente
a nuvem
tenta esconder
o azul do
céu
abismos me
temem
ou os que se
abriram
me recebem
como pedras
risco com
fumaça as artérias
o que o vizinho faz
com a minha
angústia
não me diz
respeito
abro o peito
na esperança
da fuga
do coração
enjaulado
debalde
ele se
esconde
no lugar
onde não existo
o que a minha boca faz
em benefício próprio
nem ela pode falar
talvez sorrir modifique a
a paisagem a ser engolida
talvez morder altere a
forma da palavra a ser dita
abraçado ao silêncio jaz
o poema que a minha boca faz
não existem poemas
melhores que os outros
existem os piores
e a estes dedicamos o melhor
da nossa parte
até que ele alcance
o melhor da pior parte
não existem poemas
piores que os outros
existem os melhores
e a estes dedicamos o pior
da nossa parte
até que ele alcance
o pior da melhor parte
não existem poemas
melhores nem piores
nem existem poemas
e a estes dedicamos
nossos melhores
desastres
como este
por exemplo
as mães sempre voltam
mesmo as que não são aladas
mesmo as que são feitas de
espuma
e que flutuam longe do alcance
de nossos olhos
as mães sempre voltam
mesmo as degoladas
cujos rostos não são mais
possíveis
e mesmo as cegas
nos alcançarão com o tato
ou as cegas amputadas
nos encontrarão pelo cheiro
as mães sempre voltam
mesmo as mortas
que nos ofuscam
com a sua luz embalsada
as mães sempre voltam
mesmo que não queiram
mesmo que nem existam
brotarão do tronco da memória
repleta de tristezas
interrompida aqui e ali
por algo parecido com a alegria
e nem saberemos que é alegria
mesmo assim será suficiente
para nos fazer sorrir
às vezes o poeta acerta na veia
geralmente quando isso acontece
é tarde demais
não dá tempo de chegar a tempo
a palavra que o poeta buscava
desaparece na página
e a veia que ele pensava que acertara
não passa de uma artéria
obstruída pela fala
tá difícil o mundo
quando parece que vamos engolir
destempera
e em seu lugar vai a nossa carne
a parte longe dos ossos
porque os ossos precisam de amparo
fingir parecer uma pessoa
raramente grampeio as páginas
deixo as folhas soltas
espero o vento
quem sabe palavras
venham junto
O
OP
OPA
OPAS
OPASS
OPASSA
OPASSAD
OPASSADO
O PASSADO
OPASSADO
PASSADO
ASSADO
SSADO
SADO
ADO
DO
O
palavras invisíveis
despregam do sono
é feita de giz
a raiz do abandono
minha solidão
não tem dono
repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...