sábado, 25 de julho de 2026

PERDAS

repara

a perda é reparável

repara a perda

repara

a perda é irreparável

nunca para

a perda

nunca para

repara

nunca se repara

a perda

nunca para

domingo, 5 de julho de 2026

SÓ PRA SABER QUE TE AMO

 

tudo que vai

nos seus cabelos

quando você sorrir

sai daqui

 

desse poema

ou do que sinto

quando minto

ao não dizer

 

tudo que vai nos

seus cabelos

preenche o vento

 

desse momento

em que me meto

a escrever

o que não sei dizer

 

tudo que vai

nos seus cabelos

 

sai de mim

quando você sorrir

quando aprendo

a sentir

o que não sei dizer

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

FERRUGEM

 a ferrugem surge no meio da página

igual no meio das pessoas

 

abrir uma pessoa molha tudo

abrir um livro dá em água

 

num livro a ferrugem

come uma vogal uma sílaba

retira o sentido

 

a ferrugem na pessoa

impede a leitura

a pele recoberta lembra uma estátua

que esqueceu de parar

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O POEMA NÃO É UMA CASA

 um poema não é uma casa

não se exige um terreno

onde possa fincar alicerces

erguer paredes salpicadas de cimento

nem concreto que sustente nada concreto

 

um poema não é uma casa

não se abrem portas janelas nem se penduram quadros

não se retira o pó nem se retiram moradores

não abrem corredores

não se marca o piso com pegadas

 

um poema não é uma casa

não se sustenta num endereço

não se enquadra num lote que se esgote

não recebe visitas importantes ou inoportunas

não se acrescenta a nenhuma fortuna

não se inclina com a ventania

não se verga nas intempéries

nem se molha

mesmo quando fica do lado de fora

 

um poema não é uma casa

mas há quem entre e se acomode

pensando que more  ou se esconde

atrás de palavras

que nem sabem os nomes

domingo, 23 de novembro de 2025

QUANDO O AMOR PENETRA

 ninguém presta muita atenção

quando o amor penetra

parece suave

porém quando arde

exala gumes

 

é do seu hálito pontiagudo

que as palavras se abrem

mostram seus músculos

repletos de pétalas obscenas

e outras carcaças eternas

 

depois que ele penetra

e o seu corpo é o nosso

outro corpo por dentro

por onde porejamos

de forma diferente

 

por onde sonhamos

com a sua cabeça

e ele nos narra os nossos sonhos

antes que a dor se estabeleça

antes que o amor aconteça

 

depois que ele nos prega

em sua pele qual a treva

tatuada de esferas

e nos entrega aos poucos

aos loucos sem esperas


depois que o amor penetra

não é mais nosso

nem é parte do outro

nem a parte do osso

nem o ouro nem o ouço

 

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

AS COISAS DO VAZIO

 parece leve

parece breve

tudo é tenso

                            e denso

 

santos embaralhados

atravessados pela luz

e pelas coisas

                                 inexistentes

                                 insistentes

 

cruzam os céus de bambus

guiados por poema

ACIDEZ

 nos finais de semana

minha lágrima fica mais ácida

o que tem a ver a acidez

com o fim de semana

como o que tem a ver

o fim com o fundo

o sim com o mundo

o chão com a aorta

o pão com a porta

 

como se tivesse o verde

a ver com o dia

se algo tivesse a ver com algo

não seria poesia

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CAPINANDO

debaixo do sol

a pele o suor e a fome

depois vem o dinheiro

não dá pra comprar muita coisa

mas dá pra comprar alguma coisa

 

tivesse mais tempo

daria pra comprar mais sombra

mais vento

e alguma coisa pra comer

que não causasse espanto

 

não tem tempo

para a palavra

olha o cartaz com a moça sorrindo

rodeada de letras coloridas

sabe as cores

não sabe o sabor de cada uma

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

SOPRO

 

poetas fingem destinos

criando o que ninguém vê

 

cobrem de palavras

o sopro que apaga o silêncio

FLOR DE CAPIM

  

independente da sobra

a flor de capim

nasce entre os passos

tal qual um fruto sem memória

amarela

exala a sua raiz

em direção ao fim


EXERCÍCIO CONSPIRATÓRIO

  

respiro fundo

caminho olhando para o alto

inutilmente

a nuvem tenta esconder

o azul do céu

abismos me temem

ou os que se abriram

me recebem como pedras

risco com fumaça as artérias

que por acaso me abraçam

JAULA

 o que o vizinho faz

com a minha angústia

não me diz respeito

 

abro o peito

na esperança da fuga

do coração enjaulado

 

debalde

ele se esconde

no lugar onde não existo

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O QUE A MINHA BOCA FAZ

 o que a minha boca faz

em benefício próprio

nem ela pode falar

 

talvez sorrir modifique a

a paisagem a ser engolida

 

talvez morder altere a

forma da palavra a ser dita

 

abraçado ao silêncio jaz

o poema que a minha boca faz

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

OS PIORES POEMAS

 

não existem poemas

melhores que os outros

existem os piores

e a estes dedicamos o melhor

da nossa parte

até que ele alcance

o melhor da pior parte

 

não existem poemas

piores que os outros

existem os melhores

e a estes dedicamos o pior

da nossa parte

até que ele alcance

o pior da melhor parte

 

não existem poemas

melhores nem piores

nem existem poemas

e a estes dedicamos

nossos melhores

desastres

como este

por exemplo


AS MÃES SEMPRE VOLTAM

as mães sempre voltam

mesmo as que não são aladas

mesmo as que são feitas de espuma

e que flutuam longe do alcance de nossos olhos

 

as mães sempre voltam

mesmo as degoladas

cujos rostos não são mais possíveis

e mesmo as cegas

nos alcançarão com o tato

ou as cegas amputadas

nos encontrarão pelo cheiro

 

as mães sempre voltam

mesmo as mortas

que nos ofuscam

com a sua luz embalsada

 

as mães sempre voltam

mesmo que não queiram

mesmo que nem existam

brotarão do tronco da memória

repleta de tristezas

interrompida aqui e ali

por algo parecido com a alegria

e nem saberemos que é alegria

mesmo assim será suficiente

para nos fazer sorrir 

OBSTRUÇÕES

 

às vezes o poeta acerta na veia

geralmente quando isso acontece

é tarde demais

não dá tempo de chegar a tempo

a palavra que o poeta buscava

desaparece na página

e a veia que ele pensava que acertara

não passa de uma artéria

obstruída pela fala

terça-feira, 1 de abril de 2025

TUTANO

 tá difícil o mundo

quando parece que vamos engolir

destempera

 

e em seu lugar vai a nossa carne

a parte longe dos ossos

 

porque os ossos precisam de amparo

fingir parecer uma pessoa

fantasiada de esqueleto

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

FOLHAS SOLTAS

 

raramente grampeio as páginas

deixo as folhas soltas

espero o vento

 

quem sabe palavras

venham junto

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O PASSADO

 O

OP

OPA

OPAS

OPASS

OPASSA

OPASSAD

OPASSADO

O PASSADO

OPASSADO

PASSADO

ASSADO

SSADO

SADO

ADO

DO

O

sábado, 2 de novembro de 2024

DANO

 

palavras invisíveis

despregam do sono

 

é feita de giz

a raiz do abandono

 

minha solidão

não tem dono

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...