sexta-feira, 14 de setembro de 2012

GAIOLA

o passarinho
e suas cores
seu canto e suas dores
seu encanto e sua solidão
dormem no escuro
do estômago
do gavião

CORRUPIO


a infância gira mais rápido que o mundo
atravessa-se uma bananeira
com risadas certeiras
estripam-se formigas
faz-se intriga
entre um grão de areia e outro
até formar um buraco
lombrigas são dependuradas
até tornarem-se pipas
esconde-se atrás de uma folha
que mais parece uma floresta
o universo cabe na infância
seres de outro planeta
rastejam no muro
até abduzir o sol
e brinca-se de adulto
só de mentirinha

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

QUANDO MAMÃE VEIO ME VISITAR

quando mamãe veio me visitar
não havia mais calendários
percorri todos os 365 dias de maio
como se fosse o primeiro

quando mamãe veio me visitar
não havia desmaios
e a lucidez era o gancho
que fixava o meu corpo entre as nuvens

quando mamãe veio me visitar
não havia mais água
e toda palavra pronunciada
derramava um deserto

quando mamãe veio me visitar
não havia mais alma
e a dor era a película
que me ocultava

quando mamãe veio me visitar
não havia mais tempo
tudo que seria dito
ficou tatuado no pensamento

quando mamãe veio me visitar
não havia mais espaço
corredores e portas
chegaram antes do abraço

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

CHEIRO DE ADEUS

peido adeus
como quem arrota
no fim dá no mesmo
depende de quem escuta
sempre encontro silêncios
no meio da luta
nem todo cu tem desmaios
nem todo filho é da puta

NUNCA MAIS

uma flor caída
um poema esquecido
pouco se perde
dois pássaros roçam as asas
durante um pouso
e nunca mais se encontram

DIA NOITE


o dia embrulha silêncios
que a noite vai engolindo
o dia espalha espasmos
que a noite vai tossindo

ANTES DO DIA


não importa se hoje é segunda-feira
a poesia chega antes do dia
e carrega com ela todos os objetos
que ainda não imaginamos
e o dia não permite
que se tornem realidade

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...