terça-feira, 6 de agosto de 2013

CASA ABANDONADA

o poema
é a casa abandonada
pelo poeta
a palavra
aparente mobília
o silêncio
aparente alicerce
o poema
erguido sozinho
no meio da página
ausente de vila
ausente de rua
a casa abandonada
pelo poeta
espera que alguém
a invada
e imagine
ser sua

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ENCAIXOTADO

irremediável
o olho abre
e o mundo permanece
imóvel à sua frente
com a caixa aberta
de guardar as horas
e outra caixa
onde você se encaixa
não agora
mas vai saber na hora
em que o mundo
for embora
e só ficar a caixa

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

CRAVO DAS MOSCAS


o cravo das moscas
mora no anteparo
entre o prego e a praga
entre o ouro e a prata
sem a pele um valor
com a pele bolor
o cravo das moscas
enfeita pela metade
perfuma sem vontade
não murcha de verdade
o cravo das moscas
dorme onde invade
seu sono é de marte
seu sonho é de morte

LUGARES

I

lugares onde nunca
imaginou estar
no meio do poema
por exemplo
sua presença
e depois o silêncio
para sempre



II

no meio da chuva
em dezembro
flor que se passa
por gente e
caminha
pétala colada
ao corpo


III

entre dois blocos
de gelo
uma chama equivocada
ascende aos céus
em novelos
amarra a natureza
aos abismos

CANTARES E FINGIMENTO

finjo ser
um entendedor de poesia
e vou preenchendo o dia
com palavras
passarinho não entende de música
e vai preenchendo o dia
com seu canto
é da natureza do passarinho cantar
é da minha natureza fingir

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

COMOVENTE

sob as flores
não me comovo
nem me movo
olho
como vendo
o que é visto
não me comovo
diante das flores
retiro o necessário
a palavra sem cor
sem perfume
a palavra
que não me comove

DOR

vai doer
não há escapatória
deixe a dor inundar
por dentro
até transbordar
assim você
ficará por dentro da dor
e começará a encher
até transbordar

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...