segunda-feira, 31 de agosto de 2009

eu dei na minha mãe


eu dei na minha mãe
o maior susto
quando ela me viu chegar
fantasiado de poesia
ela percebeu
nos desenhos bordados
que eu ficaria mirrado
triste desencontrado
desiludido seco perdido
abatido solitário
desvalido sem caminho
depois ficou conformada
quando expliquei
que na estrada
mais vale o passo
que a chegada
que a dita palavra
não é nada
se não for transformada
em riscos

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

das coisas irreversíveis



mesmo que você não veja
o sol brilha
em algum lugar

todo o mundo
mete a cara na vida
ao lado do fundo

e férias é o idioma
que a morte
não sabe falar
bar


vinte copos submersos
sob a superfície do olhar
todos os pensamentos
bebidos

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

canto do beijo sem lábio

minha cabeça não está pra beijo
o corpo talvez
e o lábio que se turva
diante do outro que se curva
está aquém
entre a pele
e o momento
entre entre eu disse
sem usar a cabeça
a pele do pensamento
suspensa
pingando saliva
movimentando cartilagens
sem vida
minha cabeça não está
o corpo me fez
curvar o poema
evitando tocar o lábio
pele do sentido
pregada no sangue
movimentando
a palavra exangue

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

trancelim anuviado


as nuvens pulam
de um prédio para o outro
o sol perfura o meu corpo
o chão sabe do meu passo
o tempo do meu passo em falso
espiar o mundo me obriga
a pendurar o prédio no pescoço
cada um carrega
o peso que merece
que eu carregue o mundo
que a poesia me carregue

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ditirambo


amar não precisa
de pensamento
como beber um poema
um gosto de poente
se espalha
entre o canto da boca
e da alma
poética ou
pra não manchar a idéia


a poesia não modifica nada
não vai salvar o mundo
nem afundá-lo
a poesia não evita o sofrimento
nem provoca alegria
alguém já disse
que a poesia é um sentimento
outro retrucou que a poesia
é uma epidemia inventada
para reduzir a população mundial
mas a beleza evitou criando anticorpos
a poesia não promove a paz
nem incita guerras
não é a origem de todos os males
nem evita mal algum
pra mim a poesia
é um fenômeno físico
quando me perguntam
por que faço
respondo que dois corpos
não podem ocupar o mesmo espaço

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...