passarinho canta a asa
parece estar sozinho
mas entende mais da solidão que o som
do seu bico toda a calma
de uma angústia empalhada
atravessa um corpo depenado de azul
suspenso lembra o céu
desprovido da parte que acalma
passarinho canta a asa
parece estar sozinho
mas entende mais da solidão que o som
do seu bico toda a calma
de uma angústia empalhada
atravessa um corpo depenado de azul
suspenso lembra o céu
desprovido da parte que acalma
não basta amar
é preciso publicar
nas placas das ruas
nas redes sociais
nos intervalos das novelas e dentro delas
é preciso enviar aos grupos
inclusive criar um grupo
é preciso espalhar como um spam
anexar a outras mensagens
que aparentemente nem deveriam ser lidas
não basta amar
é preciso declarar
sob juramento
diante de testemunhas
diante do padre ateu
diante do pai de santo
do mestre de cerimônias
diante do pastor e das ovelhas
diante do que estiver adiante
e tornar a declaração uma constante
seguir a bula a receita a seita
três vezes ao dia ou mais
conforme a hemorragia
não basta amar
porque guardar sem dizer
pode apodrecer dentro de você
e o amor
difícil de brotar
difícil de nascer crescer e florescer
o amor preso sem ar
sem a luz solar
sem ir até lá até alcançar o outro
que espera ouvir dos outros
a confirmação do amor declarado
esse amor preso
sem pena a cumprir
embora condenado
vai amanhecer morto ao seu lado
e você vai carregar esse corpo
embrulhado pelo silêncio
e jogá-lo na água
como se fosse um incêndio
eu desenhava barquinhos no hospício
agora melhorei e desenho navios
aprendi também a desenhar a vida
a desenhar o tempo
só não aprendi a desenhar a água
descobri que mover não cabe no meu traçado
tudo permanece encalhado
direi ao meu rosto fique pronto
olhos não se curvam
pendurados nos galhos do rosto
parecem sementes inacabadas
e furam o que cabe no círculo
ao meu rosto pronto
encaixado na paisagem
igual aos outros
porém meu
porque sem o meu corpo
é apenas uma foto
direi fique pronto
mesmo sem meu corpo
pendurado na parede
ou preso num álbum
ou guardado na memória de alguém
direi fique pronto
para se misturar com os outros
e ficar para sempre adormecido
entre os demais esquecidos
o cuspe de vó luzia
tinha gosto de cana
de coco
tinha gosto de saudade
do interior perdido na janela
o sopro da gaita em minha boca
o ar na mão do tamanho do mundo
a infância não tem fundo
quando temos sorte
escorregamos até chegar aqui
ninguém curte a minha angústia publicada
curtem minhas piadas
meus desenhos precipitados
alguns poemas equivocados
no entanto minha angústia
a que publico de maneira mais clara
mais evidente mais pura
não se segura numa página
escorre sob a força do olhar e se deposita
sobre a anterior que repousa sobre a anterior
que repousa sobre a anterior
sobre a anterior que se acumula
sobre o tempo que com a sua gula
a mastiga lentamente uma letra para cada dente
da sua boca infinita
e ao seu hálito misturo a minha existência
finjo que sou suas palavras
quando ainda estão sendo pensadas
mas que nunca serão ditas
nunca fui bom de contas
meu colar de contas sempre foi de pedras ou de perdas
da minha cabeça só enxergava o osso
nem cabia em meu pescoço
pendurado na ponta da janela
esperava um aceno borrado de veneno
ou de qualquer outra forma de despedida
que me levasse dessa vida
para dentro do mundo
onde num segundo compreendesse o tempo
mas eu nunca fui bom de contas
uso os dedos para somar meus medos
porque as perdas não são multiplicadas
diminuem juntamente com as cartilagens adquiridas
entre uma e outra ferida
nunca fui bom de contas
tudo sempre dividi ao meio
entre o que ainda vem e o que já veio
porque o agora nunca está na hora
o presente está sempre em fuga
deixando o rastro no meu corpo nessas rugas
repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...