quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

GAIOLAS

 

passarinho canta a asa

parece estar sozinho

mas entende mais da solidão que o som

do seu bico toda a calma

de uma angústia empalhada

atravessa um corpo depenado de azul

suspenso lembra o céu

desprovido da parte que acalma

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

A PUBLICIDADE DO AMOR

não basta amar

é preciso publicar

nas placas das ruas

nas redes sociais

nos intervalos das novelas e dentro delas

é preciso enviar aos grupos

inclusive criar um grupo

é preciso espalhar como um spam

anexar a outras mensagens

que aparentemente nem deveriam ser lidas

não basta amar

é preciso declarar

sob juramento

diante de testemunhas

diante do padre ateu

diante do pai de santo

do mestre de cerimônias

diante do pastor e das ovelhas

diante do que estiver adiante

e tornar a declaração uma constante

seguir a bula a receita a seita

três vezes ao dia ou mais

conforme a hemorragia

não basta amar

porque guardar sem dizer

pode apodrecer dentro de você

e o amor

difícil de brotar

difícil de nascer crescer e florescer

o amor preso sem ar

sem a luz solar

sem ir até lá até alcançar o outro

que espera ouvir dos outros

a confirmação do amor declarado

esse amor preso

sem pena a cumprir

embora condenado

vai amanhecer morto ao seu lado

e você vai carregar esse corpo

embrulhado pelo silêncio

e jogá-lo na água

como se fosse um incêndio

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

CALHADO

 eu desenhava barquinhos no hospício

agora melhorei e desenho navios

aprendi também a desenhar a vida

a desenhar o tempo

só não aprendi a desenhar a água

descobri que mover não cabe no meu traçado

tudo permanece encalhado

sábado, 28 de novembro de 2020

ROSTO PRONTO

direi ao meu rosto fique pronto

olhos não se curvam

pendurados nos galhos do rosto

parecem sementes inacabadas

e furam o que cabe no círculo

ao meu rosto pronto

encaixado na paisagem

igual aos outros

porém meu

porque sem o meu corpo

é apenas uma foto

direi fique pronto

mesmo sem meu corpo

pendurado na parede

ou preso num álbum

ou guardado na memória de alguém

direi fique pronto

para se misturar com os outros

e ficar para sempre adormecido

entre os demais esquecidos

 

 

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A GAITA DE VÓ LUZIA

 o cuspe de vó luzia

tinha gosto de cana

de coco

tinha gosto de saudade

do interior perdido na janela

o sopro da gaita em minha boca

o ar na mão do tamanho do mundo

a infância não tem fundo

quando temos sorte

escorregamos até chegar aqui

nessa parede ancorada na morte

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

PARA CURTIR MINHA ANGÚSTIA

 

ninguém curte a minha angústia publicada

curtem minhas piadas

meus desenhos precipitados

alguns poemas equivocados

no entanto minha angústia

a que publico de maneira mais clara

mais evidente mais pura

não se segura numa página

escorre sob a força do olhar e se deposita

sobre a anterior que repousa sobre a anterior

que repousa sobre a anterior

sobre a anterior que se acumula

sobre o tempo que com a sua gula

a mastiga lentamente uma letra para cada dente

da sua boca infinita

e ao seu hálito misturo a minha existência

finjo que sou suas palavras

quando ainda estão sendo pensadas

mas que nunca serão ditas

 

domingo, 4 de outubro de 2020

BOM DE CONTAS

 

nunca fui bom de contas

meu colar de contas sempre foi de pedras ou de perdas

da minha cabeça só enxergava o osso

nem cabia em meu pescoço

pendurado na ponta da janela

esperava um aceno borrado de veneno

ou de qualquer outra forma de despedida

que me levasse dessa vida

para dentro do mundo

onde num segundo compreendesse o tempo

mas eu nunca fui bom de contas

uso os dedos para somar meus medos

porque as perdas não são multiplicadas

diminuem juntamente com as cartilagens adquiridas

entre uma e outra ferida

nunca fui bom de contas

tudo sempre dividi ao meio

entre o que ainda vem e o que já veio

porque o agora nunca está na hora

o presente está sempre em fuga

deixando o rastro no meu corpo nessas rugas

 

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...