quinta-feira, 21 de julho de 2022

DO EQUILÍBRIO

 

está difícil manter o equilíbrio

toda rua parece um abismo

toda luz inclinada se derrama

sem provocar sombras

está difícil manter o equilíbrio

toda noite parece antecipada

sobre a tarde amanhecida

e as estrelas sob as marquises

procuram se esconder do sol

que entre elas ressona emparedado

está difícil manter o equilíbrio

toda palavra parece apagada

e as ideias cobertas de musgo

ancoram em cabeças degoladas

está difícil manter o equilíbrio

toda rajada de vento

lembra uma mão carregando pensamentos

para o lugar onde ninguém pode alcançar

está difícil manter o equilíbrio

o chão reverte os meus passos

para onde eu deveria ter vindo

antes que o meu corpo tivesse partido

está difícil manter o equilíbrio

não há mais paredes nem caminhos

tatear não precisa de escuros

quando o mundo está sozinho

sexta-feira, 29 de abril de 2022

PELAS RUAS DE SÍTIO NOVO

caminhamos tranquilos

pelas ruas de Sitio Novo

o córrego e eu

entendemos de sigilo

escorremos nossos segredos

pelo meio-fio

até que o sol desfaça

e quando vem a chuva

tudo se espalha

nossos segredos invadem as casas

e todos pensam que é só água

segunda-feira, 7 de março de 2022

ENTREGUE AOS OSSOS

 estou entregue aos ossos

pareço um conjunto organizado

de carnes tendões nervos órgãos

que se desloca entre um destino e outro

e  que eventualmente emite sons parecidos com palavras

gritos gemidos silêncios

porém estou entregue aos ossos

mesmo carregando esse corpo

cicatrizado que produziu cicatrizes

despido que despiu raízes

espancado que espancou

esfolado que esfolou a dor

dilacerado que feriu

corajoso que fugiu antes de contar uma história

e que aos poucos foi amontoando tudo na inútil memória

e agora do lado de fora

espera angustiado igual poeira antes do vendaval

estou entregue aos ossos

porque é tudo que me resta

em algum buraco frio e escuro antes de ser retirado

em algum crematório até ser incinerado

é o que me resta

os ossos

e a minha entrega

da carne puída na altura da vida

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

CONSTELAÇÃO SISTÊMICA


na minha constelação sistêmica não há estrelas

o brilho fica recuado entre o presente e o passado

o que fui não sabe o que é memória

o que sei não sabe o que é agora

vou me desvencilhar de tudo ao caminhar no espaço

quando nascerem as minhas pernas darei o primeiro passo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

FALANDO SOZINHO


poeta fala sozinho

o poema solitário na página

de um caderno ou de uma tela

(com sorte) na página de um livro

quase sempre fechado

é uma fala solitária

a leitura do outro

não alcança o silêncio

enxerga apenas palavras

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

LAGO

a morte está do lado de fora

inventa uma janela e fica à espreita

alcança a minha beira

e pinga

até formar um lago

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

UM ESCURO E OUTRO, ENTRE

 

a esta regra convém

manter

cega a luz

até que o seu tato alcance

as frestas

espalhadas pelo corpo e

fuja

PERDAS

repara a perda é reparável repara a perda repara a perda é irreparável nunca para a perda nunca para repara nunca se repar...